Uma vaga lembrança. Eu era muito pequena. Minha avó sustentava a casa com uma república para estudantes em Belo Horizonte. Um Jipe do Exército Brasileiro estaciona na porta e, educadamente, pede para chamar um dos estudantes. No dia anterior houvera um confronto dos estudantes da UNE com a polícia. Ele é algemado e levado prá não sei onde. Dois dias depois ele volta e nunca mais se tocou no assunto.
Como eu disse, minhas lembranças não são claras em relação a esse episódio, mas de uma coisa eu me lembro bem. Ele não recebeu 100 reais para participar da manifestação.
Há alguns dias, conversando com um estudante da UFT, ele contou radiante que tinha recebido 100 reais para participar de um programa eleitoral.
Já tive minha fase pós-ditadura e já vivi na alienação e no deslumbre de uma classe média alta. Mas não deixava de admirar aqueles estudantes. A UNE para mim era como uma seita. Distante da realidade onde apenas futuros grandes homens participavam.
Que saudades de tanta admiração. Estudantes participantes de movimentos estudantis hoje, na sua grande maioria, não passam de propensos candidatos a Deputados amanhã. Não existe mais a “causa”.
Entristeço em ver amigos meus, que sempre defenderam ideologias, com carros plotados estampando o rosto de candidatos sem o menor compromisso social.
A democracia e a liberdade de expressão afastaram a visão social, a indignação.
Os grandes líderes hoje, se resumem em CEOs. Intelectuais que optam pelo lucro em contrapartida a uma enxurrada de salários de fome. E ainda são aplaudidos por discursos onde a máxima é: Prometi? Então está “desprometido”.
Saudades da fidelidade partidária. Uma amiga morre de rir de mim, pois nunca sei de que lado as pessoas estão.
Saudades do compromisso honrado por um fio de bigode. Hoje não se usa nem mais bigode. Deve ser por isso que compromissos não são honrados.
Saudades do orgulho dos filhos pelos pais. Do nome que se carregava. Hoje, a maior parte dos lares é dirigida por mães que lutam sozinhas pela criação dos filhos.
A ditadura não existe mais. Somos um país hoje onde, talvez a fome esteja controlada, mas o povo sofre da pobreza de espírito. A carne prospera em detrimento da honra.
Queria alguém para admirar...Enquanto isso, que me desculpe o “grande” Raul Seixas, mas tenho certeza de que até ele concordaria comigo hoje, principalmente se vivesse no Tocantins: Antes ter uma opnião formada sobre tudo, do que ser uma metamorfose ambulante.
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