O único Manduca que eu conheço (ou pelo menos me lembro) é o Jalbas. Aquele que foi secretário de Estado, funcionário federal, de uma reputação até onde eu sei ilibada e que pertence à tradicional família Manduca, de Porto Nacional. A explicação se deve porque não conheci Maurício Manduca na interrompida viagem à China em abril. Seu nome constava na lista de convidados, mas seu grupo (ele e mais dois empresários) seguiu por outra rota.
Assim não tive qualquer contato com ele em Milão, onde ficamos por cinco dias. Infelizmente, pois se o tivesse conhecido teria fotos e elementos para avaliar sua relação com o governador, já que Manduca agora está preso e responderá processo na incômoda posição de lobista, com suspeita de facilitar contatos, contratos e o que mais a polícia paulista apurou.
O que há de concreto
Esclarecida esta parte, vamos aos fatos, aos bastidores dos fatos, suas versões e o nosso tratamento dos fatos. O principal: Uma quadrilha foi desbaratada em São Paulo, numa ação conjunta do Ministério Público e da Corregedoria da Polícia Civil paulista, envolvendo empresários, policiais e agentes públicos. Na ação, surgiu o nome do governador Carlos Gaguim (PMDB), do Tocantins, citado em ligação telefônica gravada em escuta autorizada judicialmente. Depois, numa operação que incluía seguir suspeitos, a polícia chegou ao hotel onde o governador estava hospedado com sua comitiva. Recebia empresários e tratava de assuntos diversos, segundo contou em entrevista.
Todas as informações que se referem ao governador do Tocantins, que tem foro privilegiado, vão seguir para o STJ – Superior Tribunal de Justiça, e para os dois tribunais do estado: o de Contas, e o de Justiça. Ponto. No sábado, o Site Roberta Tum publicou um resumo da reportagem do Estadão, numa atitude que causou espanto a alguns, embora nenhum membro do governo a tivesse questionado.
Aos que não entenderam explico: não se esconde o incontestável. Houve o fato, ele foi publicado porque é grave e interessa ao leitor do Tocantins. Ponto. Não há o que discutir. Matéria publicada, a Secom divulgou nota sobre o assunto. Nota publicada, o governador comentou o assunto em entrevista. Declarações publicadas, a vida segue, e a cobertura do site também, pautada exclusivamente por novos fatos.
Dois telefonemas em meio à crise, e uma explicação ao leitor
O turbilhão provocado pela publicação do jornal paulista rendeu desdobramentos ontem que só acontecem com a rapidez e a intensidade que estão ocorrendo por que estamos em período eleitoral. Primeiro, recebemos a oferta de uma vaga no avião que transportou a equipe de produção da Public até Campinas para acompanhar e registrar a coletiva marcada para hoje, a ser dada pelo Ministério Público e pelo Gaeco. Não aceitamos.
Agradecemos e recusamos por um simples motivo: evitar suspeição sobre o nosso veículo por estar utilizando os recursos de uma coligação para produzir matéria jornalística potencialmente ofensiva à coligação adversária. Por mais que tivéssemos cuidado e mantivéssemos o equilíbrio com que estamos pautando a cobertura dos fatos relativos a esta eleição, o risco de ser mal interpretados era grande. No Tocantins além de ser isento, tem que parecer.
O que Gaguim fala sobre sua relação com Manduca
O segundo telefonema aconteceu à noite e foi do próprio governador Gaguim, em que ele comentou a publicação e deu algumas explicações, além das que foram registradas na manhã de ontem em entrevista concedida ao repórter Gabriel Parreira. O governador não nega que tenha relações de amizade com Manduca ( o que teve o nome envolvido nas investigações foi preso e vai responder processo para que seja provada ou não sua responsabilidade). Confirmou também tê-lo recebido várias vezes para tratar de contatos com empresários interessados em investir no Tocantins. Disse ainda que no caso da China, por mais que empresários abram portas com amigos, os chineses só negociam com governos, por que só confiam em governos. Gaguim disse ainda que não tinha motivos para suspeitar de atividades ilícitas de Maurício Manduca, cuja família conhece há anos.
Tentando proteger os comissionados
Outro assunto que o governador abordou ao telefone ontem, é que a licitação promovida recentemente para contratar empresas que respondessem por serviços básicos de limpeza e conservação contou com 18 participantes. “Ninguém vai provar nada contra mim, por que não pedi nada, absolutamente nada a empresários. Minha única preocupação foi resolver o problema do Estado. Os contratos temporários da educação, por exemplo, que terminaram em junho, julho, não podem ser renovados. E o serviço, como fica? Vai parar? Não pode”, explicou.
A contratação de empresas, via licitação, com o compromisso de que elas aproveitem os servidores cujos contratos estão terminando, foi sua maior preocupação, garante Gaguim. Em seus discursos, durante solenidades até o início da campanha e nos palanques desde que entrou nela, o governador tem pregado o esforço do seu governo para tentar salvar do corte determinado pelo STF, os milhares de comissionados que tem data marcada para deixar o trabalho. É uma preocupação justa, embora os meios para resolver o problema, utilizados até aqui possam ser questionados.
Frieza é tudo na reta final
A sucessão ao governo do Tocantins se transformou num verdadeiro bombardeio, como era de se esperar desde o início. Duas forças poderosas se enfrentam: Siqueira e seu legado X o PMDB e aliados contra tudo que representa Siqueira. As denúncias vieram no começo do processo, serenaram no meio e virão com toda força no final. Não é preciso ser gênio para prever isto. Não digo com isto que sejam falsas. Nem verdadeiras.
Ao ter seu nome citado no grampo oficial da polícia de São Paulo, o governador do Tocantins vive dias tensos há menos de duas semanas da eleição. A frieza que candidatos, assessores e marqueteiros devem ter, e nem sempre conseguem, é fundamental para que eles, no campo da batalha eleitoral contornem suas crises e convençam a população de suas verdades e explicações.
Nós, no meio do tiroteio, estamos aqui para fazer jornalismo. Nada mais. E vamos seguir assim, sobrevivendo com o máximo de frieza às pressões dos fatos, e dos atores ocultos ou não nestes fatos. Por hora, o governador foi acusado, mas não foi condenado. Sua presunção de inocência vai nortear esta cobertura. Como tem que ser em qualquer lugar civilizado. Todos os fatos serão publicados.O mais, que cada grupo use nos palanques.
Afinal, tudo isso tem data para acabar: 3 de outubro. Mês que vem. No fim, só vai restar o que for comprovado. Até lá e depois da eleição, tudo que pertencer ao mundo do real, indiscutível e comprovado, a gente refaz o compromisso: você vai ler aqui.
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