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O fator Cinthia e a aposta de Aécio em Vicente Jr: faltou habilidade para quem?

A entrada de Vicente Jr. no PSDB e a saída de Cinthia Ribeiro é traumática e coloca fogo no ninho tucano, e ex-prefeita passa a ser cobiçada por outras legendas

Crédito: Divulgação

A entrada de Vicente Jr. no PSDB e a saída de Cinthia Ribeiro é traumática e coloca fogo no ninho tucano, e ex-prefeita passa a ser cobiçada por outras legendas

 

 

Acompanho os bastidores da briga interna pelo comando do PSDB nos últimos dias, desde que o deputado federal Vicente Jr, agora no comando da legenda tucana no TO, iniciou seu movimento para desembarcar de mala e cuia no partido de Aécio Neves e Marconi Perillo, este último, candidato a governador do vizinho Estado de Goiás.

 

Assistindo vídeos de colegas, lendo comentários no X e em outras redes percebo que vem prevalecendo o argumento: “ah, ela não entregou deputado federal, não montou chapa, era natural que perdesse o comando do partido”. Ou: “essa disputa é normal na política, não tem nada a ver com gênero”...

 

Mas será que é isso mesmo?

 

Primeiro é imperativo reconhecer que política é um ambiente majoritariamente masculino, onde as mulheres chegaram depois e ainda lutam para conquistar e resguardar seus espaços. Neste quesito, o PSDB Nacional trocou uma ex-prefeita com 12 anos na legenda, por um deputado federal. Que traz na bagagem outro: o deputado Antônio Andrade. Nenhum dos dois, como se sabe, disputará vaga para a Câmara dos Deputados. Toinho retorna ao Tocantins para disputar vaga de estadual. E Vicentinho Jr. disputará o governo do Estado como elemento surpresa.

 

O fato é que vindo agora, antes da janela partidária se fechar, eles contam para o cálculo do tempo de TV e fundo partidário.

 

Mas o que de fato aconteceu entre a primeira conversa de Cinthia e Vicente Jr até que as águas ficassem turbulentas e desaguassem na saída da ex-prefeita do ninho tucano? Fiquem comigo e vamos aos fatos...

 

Primeiro Ato: a aproximação de Vicente Jr com Marconi e a busca por Aécio

 

Segundo me relatou na primeira entrevista sobre o assunto, o deputado federal Vicente Jr, sua conversa com Marconi Perillo por telefone num domingo em que estava na sua fazenda em Santa Tereza (contato passado por um intermediário, próximo aos dois), foi o primeiro passo para a aproximação. Nela Vicentinho Jr teria falado da admiração por Marconi e a forma como venceu Iris Rezende em Goiás. Conversou também sobre a sua intenção de disputar o governo e do apreço pelo PSDB.

 

Aí começa a primeira divergência de narrativas. Segundo o deputado, Marconi o teria convidado a filiar-se.

Segundo a ex-prefeita, em conversa com ela por telefone, o ex-governador lhe garantiu que não fez esse convite.

 

Desde o começo, Vicente Jr. afirma que não iria para o partido sem o comando, Até para ter liberdade de convidar pessoas, garantir legenda e tocar o projeto.

 

A ele Marconi teria recomendado procurar Cinthia. Coisa que Vicente Jr. fez na segunda-feira seguinte..

 

Segundo ato: a conversa de Vicente e Cinthia

 

Da conversa da segunda-feira seguinte entre os dois líderes, pacífica, também saíram duas versões.

 

Na de Cinthia ela o teria recebido muito bem, a partir de um pedido do presidente da legenda, Aécio Neves. Ele teria perguntado a ela qual era seu projeto para este ano, mas não teria se posicionado como pré-candidato a governador e que estava vindo para o partido.

 

Já do lado de Vicente Jr. – que foi acompanhado de dois assessores – ouve-se que ela disse estar pronta para qualquer coisa, até mesmo para ir para as ruas pedir voto e não disputar nada.

 

O certo é que na saída, fontes ligadas a Vicente Jr já começaram a dar como certo que a ex-prefeita o apoiaria. Coisa que ela tratou de desmentir. O clima entre os dois azedou, até que com três tuites no X, a ex-prefeita expos que uma tentativa de tomar-lhe o comando do partido era orquestrada em Brasília. Atropelando sua história e sua capacidade e articular a política tucana do Estado, inclusive apresentando candidatos competitivos a deputado federal. Dois com mandato inclusive andaram conversando com a ex-prefeita, e estariam aguardando o desenlace da disputa pelo comando para se posicionarem.

 

Terceiro ato: tempo fecha, pressão de Aécio e firmeza de Cinthia

 

A resposta que Vicente Jr não deu aos tuites, reverberou nos bastidores do PSDB. Em Brasília com a família, Cinthia foi chamada à nacional para uma conversa com o presidente.

 

Aécio a recebeu acompanhado de um dos líderes nacionais, de semblante fechado e afirmando que não aceitava pressão pelas redes. O que poderia ser um bate boca, acabou se tornando uma conversa dura em que Cinthia lembrou ao presidente o voto dela e do ex-presidente Marconi na definição do seu nome para o comando do tucanato, o compromisso de não interferência em Goiás e no Tocantins, e outros detalhes da aproximação de Vicente Jr com o PSDB.

 

De lá saiu com um pedido de trégua feito por Aécio e de que haveria a construção de acordo em que o deputado iria para a sigla para ser candidato ao governo, e a ex-prefeita manteria o comando da legenda.

 

Cinthia teve ainda o aval de Aécio para tocar o recém-lançado “Tocantins da Esperança”.

 

Assim, a filiação, seguida de intervenção no Estado, lida pela ex-prefeita como uma mudança de viés ideológico no tucanato tocantinense e um ato de violência de gênero -  já que ela presidia até dois dias, o PSDB Mulher Nacional – tem sua razão de ser. Especialmente por parte do presidente da legenda, Aécio Neves, que conduziu a chegada de Vicente Jr.

 

Como política requer a habilidade de transformar adversários em companheiros e não o contrário lembrando de uma conversa com o deputado onde lhe perguntei quem ele esperava ter ao seu lado no palanque do ano que vem: Cinthia ou Eduardo, respectivamente ex-prefeita e prefeito da capital ele me respondeu que de preferência os dois. “O que eu não posso é correr o risco de não ter nenhum deles, aí seria muita inabilidade minha”, argumentou.

 

A esta altura e com essa chegada traumática ao PSDB, resta perguntar a qual dos dois lados faltou habilidade? Esta resposta o tempo trará.

 

A realidade é que o fator Cinthia Ribeiro pode alterar o rumo desta eleição. A depender dos desdobramentos, provocar um segundo turno. Por isso e sabendo disto, diversas lideranças têm desde a semana passada buscado a ex-prefeita para conversar.

 

Entre elas Paulo Mourão, a quem ouvi por telefone: “não a convidei para vir para o PT porque o partido tem suas instâncias internas e ela ainda está no PSDB, mas relembrei a ela minha história no partido. Eu tinha mandato quando me tiraram a legenda. Este é o jeito do PSDB agir. E ela é muito maior que isso”.

 

Cirúrgico e profético. Resta saber agora o que virá nas cenas dos próximos capítulos.

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