O Nobel de Maria Corina

Em artigo, autora analisa gesto de Maria Corina à luz da obra de Marshall Berman e questiona normalização da violência e o esvaziamento dos símbolos

Crédito: Arquivo Pessoal

Marshall Berman, no prefácio de Tudo o que é sólido desmancha no ar – A aventura da modernidade, escreve: “Ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição. É sentir-se fortalecido pelas imensas organizações burocráticas que detêm o poder de controlar e frequentemente destruir comunidades, valores, vidas; e ainda sentir-se compelido a enfrentar essas forças, a lutar para mudar o seu mundo transformando-o em nosso mundo. É ser ao mesmo tempo revolucionário e conservador: aberto a novas possibilidades.”

 

Décadas depois de ter lido esse livro, peguei-me pensando nele diante do último episódio relacionado ao Nobel da Paz de 2025.

 

Pode ter passado despercebido para a maioria das pessoas, mas, “de joelhos” — imagem nossa, Maria Corina desfez-se do prêmio que havia recebido — a meu ver, de forma injustificada — sob o argumento de ser um ícone da defesa da paz. A laureada entregou simbolicamente o Nobel ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como gesto de agradecimento pela invasão da Venezuela e pelo sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cília Flores.

 

Quando Marshall Berman dizia que viver a modernidade é viver em luta permanente, talvez estivesse antecipando aquilo que hoje repetimos quase como um mantra resignado: não temos um minuto de paz. Saber ler, interpretar e compreender o mundo contemporâneo tornou-se uma forma de tortura contínua. Assistir ao acúmulo de absurdos praticados pelos Estados Unidos contra o povo venezuelano — movidos por uma ganância desmedida, à revelia de convenções internacionais construídas em nome da paz e da proteção dos povos — e sentir-se absolutamente impotente diante disso tudo. Seria isso, afinal, ser moderno?

 

Acredito que sim. A modernidade nos ensinou que não há solidez alguma naquilo que aprendemos a confiar como proteção. O bom senso transformou-se em algo próximo do nonsense, dissolvendo-se no ar. Vivemos sob a ameaça constante de que esse mesmo roteiro se repita com outros povos — inclusive conosco, que já sentimos o hálito quente e fétido do “grande irmão” em nosso cangote.

 

O gesto de Maria Corina não é apenas uma imagem isolada. É um sintoma. Há imagens que dispensam explicação porque expõem, de forma crua, o esvaziamento dos valores que dizem representar. O prêmio entregue e o sorriso protocolar não simbolizam apenas um gesto individual, mas a normalização da violência travestida de reconhecimento institucional. A modernidade talvez seja isso: assistir ao colapso dos símbolos enquanto seguimos a rotina, absorvendo o escândalo como parte do fluxo normal das coisas.

 

Seguimos, assim, conscientes demais para não perceber, cansados demais para reagir — enquanto os gestos se repetem e os aplausos seguem, como se nada estivesse fora do lugar.

 

Juliete Oliveira - Poeta

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