Há encontros que não se explicam apenas pelo calendário. Há visitas que transcendem a data marcada e se tornam, elas mesmas, uma espécie de celebração da vida. Foi assim que vivi a tarde do último dia 31 de março, quando tive a honra e a alegria de ser recebido por Dona Maria Lucy Veiga Teixeira — a querida Tia Fifia — em seu apartamento na Praça do Sol, no Setor Oeste, em Goiânia.
Entrei pela porta e fui recebido não apenas por uma pessoa, mas por uma presença. Tia Fifia é dessas figuras raras que parecem carregar em si uma energia própria, um brilho que os anos jamais conseguirão apagar. Ela é vida. Assim, no presente do indicativo, sem hesitação: vida. Alegre, ativa, curiosa, generosa. Uma mulher que não apenas viveu muito, mas que vive intensamente, ainda hoje, com a mesma chama que a conduziu por quase um século de existência.
Quase um século. Em breve, Tia Fifia completará 100 anos, e eu ousaria dizer que ela chegará a essa marca com mais vitalidade do que muitos de nós, décadas mais jovens.
Durante nossa conversa, ela me contou, com aquele sorriso sereno de quem conhece bem o valor das coisas simples, que há mais de quarenta anos toca semanalmente na Paróquia Mãe de Misericórdia, na rua atrás do Colégio Externato São José, ali na região oeste de Goiânia. Mais de quarenta anos de devoção musical ininterrupta. Não por obrigação, não por hábito vazio — mas por amor. Porque a música, para ela, nunca foi apenas uma profissão ou um dom: é a linguagem com que escolheu dialogar com o mundo e, talvez, com o próprio sagrado. Faz sentido que seja assim. Afinal, essa sensibilidade foi forjada nas melhores escolas, inclusive ao lado de Heitor Villa-Lobos, no Rio de Janeiro, de quem foi aluna. Quem aprendeu a ouvir música com Villa-Lobos, aprendeu a ouvi-la com a alma.
Reger, ensinar, conversar sobre música. São as grandes paixões de Tia Fifia. E quando ela fala sobre isso, o tempo na sala parece se reorganizar, como se as notas de uma melodia antiga preenchessem o ar discretamente. Ela ainda se encontra com amigas de sua geração e toca para elas, relato que me tocou profundamente. Há algo de belíssimo nessa cena: mulheres que atravessaram um século de Brasil, reunidas ao redor da música, como se a arte fosse o fio que costura as memórias e mantém aceso o desejo de estar juntas.
Tia Fifia não chegou até aqui sem enfrentar dificuldades. A vida não lhe poupou provações. Mas o que me impressiona e admiro com respeito profundo é que nenhum obstáculo foi capaz de obscurecer seu brilho. Ela atravessou as tempestades sem perder a melodia. E isso diz tudo sobre o que ela é.
É impossível discorrer sobre Tia Fifia sem citar o que ela construiu. Antes mesmo de existir formalmente a Universidade Federal de Goiás (UFG), ela já estava lá, junto com outras mulheres corajosas e visionárias — Maria das Dores Ferreira de Aquino, Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça, Dalva Pires Bragança e Maria Luiza Póvoa Cruz — e do maestro belga Jean Douliez, plantando as sementes do que viria a ser a Escola de Música e Artes Cênicas da UFG. O Conservatório Goiano de Música, fundado em 1956, nasceu do sonho e da determinação dessas pioneiras, e sua incorporação à UFG em 1960 foi resultado direto da luta incansável delas. Tia Fifia não apenas participou dessa história: ela é parte indissociável dela. Desse legado nasceram gerações de músicos goianos que hoje se apresentam nos mais diversos palcos do mundo.
Goiás é uma terra que sabe produzir grandezas. Dos seus cerrados e veredas surgiram mentes e almas que marcaram o Brasil, como Cora Coralina, que encontrou na poesia do cotidiano uma forma de eternidade; Ana Braga, e tantos outros grandes juristas, escritores, pensadores e políticos que ajudaram a escrever a história do nosso país. Tia Fifia pertence a essa linhagem. É uma das filhas ilustres dessa terra, alguém que escolheu a música como seu modo de habitar o mundo e, ao fazê-lo, enriqueceu imensamente a cultura do coração do Brasil.
Saí daquele apartamento na Praça do Sol levando mais do que boas memórias de uma tarde agradável. Saí com algo que só os grandes encontros são capazes de nos dar: a certeza renovada de que vale a pena viver com paixão, com propósito, com generosidade. Tia Fifia me ensinou isso uma vez mais, sem precisar dar nenhuma aula, apenas sendo quem ela é.
A ela, minha admiração, meu carinho e minha gratidão. Que sua música nunca pare. Que sua alegria siga contagiando a todos que têm a sorte de cruzar seu caminho. E que, quando chegar o momento de celebrar seus cem anos, eu esteja lá para aplaudir de pé uma vida que é, ela mesma, uma obra-prima.
Por José Wagner Praxedes - Conselheiro Decano do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins
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