Tocantins no comércio global: crescimento, limites estruturais e desafio do progresso

Tocantins no comércio internacional: crescimento exportador, limites estruturais e o desafio do desenvolvimento

Crédito: Divulgação

O desempenho recente das exportações do Tocantins revela um estado cada vez mais integrado ao comércio internacional. Dados da Plataforma ComexStat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC (2026), indicam crescimento expressivo do valor exportado, sustentado principalmente por commodities agrícolas, como soja, milho e carne bovina, além do avanço de produtos minerais, com destaque para o ouro. À primeira vista, esse movimento reforça a narrativa de sucesso econômico associada à expansão do agronegócio e à inserção do estado nas cadeias globais de comércio.

 

 

Em 2025, as exportações do Tocantins superaram US$ 3,04 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 16,4 bilhões, registrando crescimento de 21,7% em relação a 2024 e consolidando o estado como o terceiro maior exportador da Região Norte, atrás apenas de Pará e Rondônia. A soja respondeu por 51,1% do valor exportado, seguida pela carne bovina, com cerca de 21,1% do total. A China destacou-se como principal destino das exportações, absorvendo aproximadamente 55,6% do valor comercializado. Esses dados evidenciam que a pauta exportadora tocantinense permanece altamente concentrada em produtos primários ou de baixo grau de processamento.

 

 

Do ponto de vista macroeconômico, a performance exportadora contribuiu para um saldo positivo da balança comercial estadual de aproximadamente US$ 2,7 bilhões, mesmo diante do crescimento das importações, sobretudo de fertilizantes e insumos agrícolas. Esse resultado é frequentemente interpretado como indicador de solidez externa e competitividade setorial.

 

 

A concentração geográfica das exportações também é expressiva. Cerca de 50% do valor exportado está concentrado em cinco municípios: Porto Nacional (US$ 552,2 milhões), Palmas (US$ 338,3 milhões), Araguaína (US$ 218,7 milhões), Gurupi (US$ 196,8 milhões) e Alvorada (US$ 178,4 milhões). Essa distribuição revela assimetrias internas relevantes no processo de inserção do estado no comércio internacional, indicando que os benefícios do crescimento exportador não se espalham de forma homogênea pelo território tocantinense.

 

 

Entretanto, a relevância desses números para o desenvolvimento econômico local é mais complexa. A elevada concentração em commodities implica que grande parte da renda gerada pelas exportações não permanece agregada às cadeias produtivas do estado. Como resultado, o valor econômico efetivamente circula de forma limitada na economia interna, com participação restrita de pequenas e médias empresas e reduzida geração de empregos qualificados. Assim, embora o desempenho exportador evidencie competitividade regional, ele também expõe fragilidades estruturais do modelo de inserção produtiva e seus impactos sobre o desenvolvimento local.

 

 

Essa constatação exige uma análise mais aprofundada, que vá além do volume exportado e questione a qualidade do crescimento econômico e seus efeitos estruturais. Nesse contexto, a teoria econômica crítica à chamada staple trap, ou armadilha das commodities, oferece um referencial analítico relevante. Harold Innis (1894–1954), ao estudar o papel dos recursos naturais na economia canadense, observou que regiões excessivamente dependentes da exportação de produtos básicos tendem a desenvolver estruturas econômicas rígidas, com baixa diversificação produtiva e benefícios concentrados em poucos agentes econômicos, uma situação que se mostra pertinente ao contexto tocantinense.

 

 

A literatura contemporânea do desenvolvimento reforça essa crítica. Autores como Ha-Joon Chang (CHANG, 2002) argumenta que os países hoje desenvolvidos alcançaram esse status ao contrariar, em diversos momentos históricos, as recomendações de especialização precoce e de livre comércio irrestrito. Em vez disso, investiram em políticas industriais, inovação, educação e agregação de valor. De forma complementar, os estudos de Ricardo Hausmann e Cesar Hidalgo (HAUSMANN; HIDALGO 2011), formuladores da teoria da complexidade econômica, demonstram que a diversificação das exportações e o aumento da complexidade produtiva estão associados a maiores níveis de renda e crescimento sustentável. Economias excessivamente especializadas em produtos de baixa complexidade enfrentam dificuldades para avançar nas cadeias globais de valor, perpetuando estruturas produtivas pouco inovadoras e altamente dependentes das oscilações internacionais de preços.

 

 

A crítica associada à chamada resource curse, ou “maldição dos recursos”, também alerta para os riscos da dependência de recursos naturais exportáveis. Economias ancoradas nesse modelo tendem a se tornar mais vulneráveis a choques externos, volatilidade de preços e conflitos distributivos, além de enfrentarem impactos sociais e ambientais significativos.

 

 

No caso do Tocantins, o peso das commodities, embora gere volumes crescentes de receita externa, levanta questionamentos sobre quanto desse valor circula, de fato, no interior do estado. Em muitos casos, a renda gerada beneficia principalmente grandes produtores integrados a cadeias globais, sem se traduzir em desenvolvimento industrial, tecnológico ou em empregos qualificados. Assim, o saldo positivo da balança comercial pode coexistir, de forma paradoxal, com baixos níveis de agregação de valor e com a persistência de desigualdades regionais.

 

 

O desempenho exportador do Tocantins é, sem dúvida, um ativo importante. O estado consolidou sua presença no comércio internacional e contribui para o superávit comercial brasileiro. Contudo, a dependência de um conjunto restrito de commodities limita o potencial de crescimento sustentável e tende a reproduzir padrões de desenvolvimento que concentram renda e benefícios em poucos segmentos da sociedade.

 

 

O superávit comercial estadual, embora relevante sob a ótica macroeconômica, não assegura que a riqueza gerada seja amplamente distribuída. Grande parte do valor exportado é apropriada por grandes grupos empresariais, frequentemente conectados a cadeias globais de produção, enquanto os efeitos multiplicadores sobre pequenas empresas, trabalhadores e municípios permanecem reduzidos. Dessa forma, o saldo positivo pode coexistir com fragilidades sociais, baixa complexidade produtiva e dependência fiscal de poucos setores.

 

 

Diante desse cenário, o desafio do Tocantins não consiste em abandonar suas atividades exportadoras, mas em superar a armadilha da especialização primária. Isso implica estimular o processamento local das matérias-primas, desenvolver cadeias agroindustriais e minerais mais sofisticadas, fortalecer a indústria regional e investir de maneira consistente em educação, ciência e tecnologia. Ademais, exige a implementação de políticas ambientais rigorosas, capazes de mitigar impactos e assegurar que o crescimento econômico não comprometa o patrimônio natural nem a qualidade de vida das comunidades locais.

 

 

Em síntese, o avanço das exportações posiciona o Tocantins em destaque no cenário nacional. Contudo, o desenvolvimento não pode ser medido apenas pelo volume exportado ou pelo saldo da balança comercial. Ele se constrói a partir da capacidade de transformar riqueza em bem-estar social, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades econômicas internas. Converter exportações em desenvolvimento inclusivo requer não apenas a atração de divisas, mas a construção de uma estrutura produtiva capaz de agregar valor, diversificar atividades econômicas e distribuir de forma mais equitativa os frutos do crescimento. Somente assim o Tocantins poderá evitar a armadilha das commodities e consolidar um modelo de desenvolvimento econômico, social e ambientalmente sustentável.

 

 

*Francisco Viana Cruz é Doutor em Economia e Professor do IFTO

 

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