Reconhecida nacionalmente por seu trabalho no combate à violência contra a mulher, a coordenadora da Patrulha Mulher Segura da Guarda Metropolitana de Palmas (GMP), inspetora-chefe Letícia Bordin, participou nesta quarta-feira, 7, da reunião emergencial interinstitucional para fortalecer as ações imediatas de enfrentamento à violência de gênero e de prevenção ao feminicídio, promovida pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria da Mulher.
Durante suas considerações, Letícia parabenizou a iniciativa da Pasta em chamar as igrejas para a reunião, pois é para lá que, geralmente, as mulheres vão, mas questionou o porquê dos representantes de religiões de matriz africana não terem sido convidados. "Para onde que essa mulher vai primeiro? É na igreja. É na igreja. Agora sinto falta do meu povo do Axé. Cadê o povo da Umbanda? Cadê o povo do Candomblé?", indagou.
Em sua fala, a coordenadora lembrou que a violência não tem discriminação e relatou um caso ocorrido recentemente na Casa da Mulher Brasileira em Palmas em que uma colega evidenciou o receio de ser demitida caso soubessem da fé professada por ela, deixando ela (Letícia) chocada. "Há uns três meses houve uma reunião na casa da mulher brasileira, uma irmã do Axé foi lá fazer uma palestra e aí eu cheguei no momento dela e falei assim: "Você já percebeu que nós temos seis pessoas do Axé?" Ela: "Por favor, não fale. Não fala porque senão eu vou ser demitida".
Na sequência do relato, Letícia Bordin questionou os presentes na reunião interinstitucional desta quarta-feira, 7: "é ou não é uma violência? Muitas de nós, inclusive eu, às vezes receio falar que sou da Umbanda, porque a gente sofre preconceito religioso. Existem muitos preconceitos no campo da violência. Então, como disse Mário Pinto (membro de Conselhos no âmbito estadual e municipal), cidades espíritas, chame os povos de terreiro, porque a violência ela não discrimina a religião. A violência ela não tá em todas as partes sociais em todos os segmentos. Então, essa é minha contribuição hoje", finalizou Letícia em tempo de ouvir da secretária da Mulher, Berenice Barbosa, que o convite não foi feito porque teve um contratempo.
Sobre a reunião
Após o momento de reflexão sobre diversidade, o colegiado interinstitucional definiu medidas práticas para frear a escalada de violência de gênero na capital:
- Operação 30 Dias: Um cronograma emergencial de atuação nos bairros de Palmas, com foco em áreas de maior risco, será executado no próximo mês;
- Modelo de Sucesso: O secretário de Segurança Pública, Bruno Azevedo, anunciou a intenção de replicar em todo o estado o modelo de Araguaína — município que alcançou a marca de dois anos sem feminicídios através da integração total da rede;
- Monitoramento Contínuo: A criação da Rede Estadual de Enfrentamento garantirá que os órgãos de justiça, saúde e segurança falem a mesma língua, evitando que denúncias caiam no esquecimento.
Força Tarefa
O encontro reuniu um arco amplo de alianças, incluindo o Tribunal de Justiça, Ministério Público, Defensoria, além de entidades como a APAE e a Ordem dos Ministros Evangélicos (OMEP). O consenso é um só: a proteção da mulher exige respostas rápidas, articuladas e, conforme provocado pela Inspetora Letícia, plurais.
Ao final dos 30 dias de ações em Palmas, uma nova cúpula será realizada para avaliar os indicadores e estender o plano para o interior do Tocantins.
A secretária de Estado da Mulher, Berenice Barbosa, explicou que a reunião foi convocada para organizar a resposta institucional do Governo diante do aumento da violência contra as mulheres. "O foco está na integração efetiva da rede e na parceria entre os órgãos. As medidas deliberadas têm caráter imediato e serão acompanhadas de forma contínua, com prioridade para a proteção de mulheres em situação de risco”, afirmou.
O secretário de Estado da Segurança Pública, Bruno Azevedo, ressaltou que o enfrentamento à violência contra a mulher depende de ações permanentes e articuladas. “O combate aos casos de violência contra a mulher e, principalmente, ao feminicídio passa por ações coordenadas e contínuas de monitoramento e prevenção. A Segurança Pública irá aderir a esta iniciativa da Secretaria da Mulher, uma vez que esta é uma das nossas prioridades para o ano. Temos, no âmbito da Polícia Civil e da SSP, experiências bem-sucedidas que podem ser replicadas, como o caso de Araguaína, que ficou mais de dois anos sem registros de feminicídio graças às ações integradas desenvolvidas no município. É um modelo que pode ser expandido para todo o Estado”, destacou.
Participantes
Participaram do encontro representantes de diversas instituições que compõem a rede de proteção e apoio à mulher, incluindo o Conselho Tutelar Central; a Ordem dos Ministros Evangélicos de Palmas (Omep); a Associação Saúde em Movimento (ASMOSUS); a Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ); a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae); a Secretaria de Estado da Saúde (SES-TO); a Secretaria de Estado da Cidadania e Justiça (Seciju); a Secretaria da Segurança Pública (SSP-TO); o Tribunal de Justiça (TJ); o Ministério Público (MP); a Casa da Mulher Brasileira; a Guarda Civil Municipal (GCM); a Secretaria Municipal da Mulher de Palmas; a Secretaria de Estado da Gestão e da Governança Pública (Segov); a Secretaria dos Povos Originários e Tradicionais (Sepot); o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim); o Centro Universitário Maurício de Nassau (Uninassau); o Instituto Municipal de Pesquisa e Planejamento Urbano de Palmas (Impa); e associações comunitárias da capital.
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