Neste 30 de janeiro, o Dia Mundial de Luta contra as Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) pauta a necessidade de avanços no diagnóstico e tratamento de enfermidades que atingem 30 milhões de brasileiros. No Tocantins, o cenário exige vigilância específica. Conforme análises de especialistas do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (HDT-UFNT/Ebserh), o estado registra a segunda maior incidência de hanseníase do Brasil (Mato Grosso ocupa o primeiro lugar) e mantém-se como área endêmica para leishmaniose visceral, com 46,4 casos por 100 mil habitantes.
O infectologista Tobias Garcez, do HDT-UFNT/Ebserh, explica que, embora o clima quente e úmido seja favorável, o fator determinante para a prevalência dessas moléstias é a precariedade da infraestrutura sanitária. De acordo com o especialista, o termo "negligenciadas" refere-se ao desinteresse político e econômico que resulta em investimentos reduzidos em pesquisa e vigilância epidemiológica, dificultando o controle de doenças como as já citadas, além da doença de chagas, dengue e outras arboviroses, esquistossomose, parasitoses intestinais, malária, tuberculose e outras.
"O paciente sente os sintomas clássicos, mas não encontra serviço adequado para reconhecer e tratar a doença. E, quando encontra o serviço, ainda tem de ultrapassar algumas barreiras de acesso, como falta de agendamento, profissionais e insumos para os exames”, relata ao ressaltar que as DTNs possuem tratamento disponibilizado pelo SUS, cada uma com fluxo adequado, e o HDT contempla todas elas.
"A dengue, por exemplo, é um evento pontual, que não tem tanto impacto social na reabilitação. Mas o calazar tem altíssima mortalidade se não tratado, enquanto (doença de) chagas e hanseníase podem ter evolução indolente com altas taxas de sequela e invalidez. O HDT faz seguimento de leishmaniose visceral principalmente nos coinfectados com HIV que necessitam de profilaxia a cada 15 dias, a depender da imunidade”, complementa Tobias.
Dermatologia
O dermatologista Ebert Aguiar destaca que a leishmaniose tegumentar e a hanseníase são as patologias que mais acometem a pele, exigindo uma integração entre as áreas de infectologia e dermatologia para o manejo adequado. Os especialistas alertam que a semelhança dos sintomas com patologias comuns — como febre prolongada, perda de peso e lesões de pele — é um dos principais obstáculos ao diagnóstico precoce.
“A leishmaniose visceral não tem um comprometimento cutâneo, é mais de órgãos viscerais, mas é uma doença bastante importante, com mortalidade alta em crianças e idosos, diferente da leishmaniose tegumentar, que realmente acomete a pele. No Tocantins tem ainda a malária, que, em Araguaína (TO), onde fica o HDT, é uma doença que a gente vê um pouco menos hoje em dia”, resume o médico.
Sobre a doença de chagas, Ebert afirma que, ocasionalmente, há surtos. É uma doença também negligenciada, relacionada ao tipo de casa, à presença do barbeiro, mas a gente tem uma forma de contaminação peculiar, pelo trato digestivo por alimentação de bacaba ou açaí, porque o barbeiro contaminado acaba sendo moído junto com esses alimentos. As pessoas se alimentam disso e acabam se contaminando”, completa Ebert.
O dermatologista destaca também a parceria entre os serviços de infectologia e dermatologia no HDT-UFNT para o tratamento das DTNs. “De fato são doenças que, às vezes, quem vai focar mais é o dermatologista; em outras, é a infectologia mesmo. Mas sempre havendo discussões de casos, consultorias, pois é um hospital que tem mesmo esse perfil de doenças tropicais”, reforça.
Tratamento gratuíto no SUS
Os profissionais do HDT-UFNT, reforçam que todas as DTNs possuem tratamento integral disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O hospital atua como referência no seguimento de casos complexos, como pacientes coinfectados com HIV que necessitam de profilaxia quinzenal para leishmaniose visceral, visando reduzir as taxas de mortalidade e o impacto social das sequelas.
DTNs no mundo
As Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs) são denominadas dessa forma por apresentarem indicadores inaceitáveis e investimentos reduzidos em pesquisa, produção de medicamentos e vigilância epidemiológica. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,7 bilhão de pessoas no mundo podem estar sob risco de adquirir DTNs, com a ocorrência de 200 mil mortes por ano.
Principais sintomas e sinais de alerta
Os sintomas das DTNs podem se assemelhar aos de outras patologias mais comuns, o que dificulta o diagnóstico precoce. Febre prolongada, perda acentuada de peso, lesões de pele e mucosas, falta de ar e aumento progressivo do volume abdominal estão entre os sinais que devem motivar investigação clínica rápida e criteriosa. A atuação dos profissionais de saúde deve priorizar a investigação precoce, antes que a evolução dessas enfermidades resulte em sequelas irreversíveis ou risco de morte.
Tratamento especializado na Rede Ebserh
A maioria dos tratamentos necessários é disponibilizada mediante notificação e solicitação ao Ministério da Saúde, podendo ser realizada em qualquer serviço de saúde, público ou privado. Além disso, a equipe do HDT-UFNT/Ebserh, em conjunto com outros serviços especializados, oferece acompanhamento após o tratamento, com foco na abordagem de possíveis complicações ou sequelas.
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