Três exposições e um recado para o Tocantins

Artigo traz reflexões sobre imersão cultural em Goiânia, destaca o impacto das obras de Siron Franco e defende maior incentivo público e privado para impulsionar e dar visibilidade aos artistas do TO

Crédito: Arquivo Pessoal

Toda cidade grande pede pressa e quase sempre a gente atende. Estive em Goiânia na semana passada para uma agenda cheia de compromissos, daqueles que tomam o dia de ponta a ponta. Ainda assim, guardei a tarde de sexta-feira, 19, para uma pequena pausa. Com a companhia dos amigos Ana Luiza Umbelino Lira, Lucyara Alvares Dumont, e do artista plástico Fernando Costa Filho, iniciamos uma imersão cultural na cidade. Acredito com convicção que só crescemos cuidando, respeitando e valorizando a cultura. Um povo que vê, lê e cria é um povo que se reconhece.

 

Começamos pelo Centro Cultural da UFG, na exposição "Essa grande liberdade: identidades LGBTQIAPN+ em Goiás", com curadoria de Paulo Duarte-Feitoza. São mais de sessenta artistas e cerca de cento e vinte obras que contam, em muitas vozes, como pessoas LGBTQIAPN+ goianas vêm inventando seus modos de existir. O título nasceu de uma confidência do fotógrafo Samuel Costa, que, ao se mudar para a França nos anos 1970, sonhava fotografar uma "pequena liberdade"; a curadoria pegou aquela frase e a abriu, transformando a liberdade em terreno de luta e de invenção. Essa visita teve para mim um sabor particular: entre os artistas em cartaz está o próprio Fernando, que caminhava ao meu lado. Ver a obra de um amigo na parede e ele ali do lado é o tipo de coisa que nenhum release consegue traduzir.

 

De lá, fomos conhecer dois espaços que mostram bem como Goiânia trata suas galerias, as particulares e as públicas. Na Cerrado Galeria de Arte, o que me prendeu foi a própria casa: um casarão modernista de 1955, erguido por Abdala Abrão e projetado pelo arquiteto David Libeskind, o mesmo do Conjunto Nacional de São Paulo. A antiga residência da família Abrão foi, por muito tempo, um dos grandes orgulhos da sociedade goiana, um daqueles endereços que a cidade inteira aprendeu a admirar. Tenho com ela uma lembrança particular: na juventude, eu costumava parar diante daquela fachada sempre que passava por ali, só para apreciar com calma as linhas retas da sua arquitetura. Abrão foi um construtor no sentido mais bonito da palavra, alguém que levantou paredes pensando também na beleza que elas guardariam um dia.

 

Hoje o endereço virou uma galeria privada com a ambição de fazer da cidade uma porta de entrada para a arte no Centro-Oeste. Quando estivemos lá, a casa abrigava duas mostras, "Modernização Conservadora", de Gustavo Torrezan, e "Interior", de Fábio Baroli, prova de que o espaço não para. Mas o que me fez deter mesmo foi uma notícia: os donos da galeria adquiriram a casa ao lado, que já está em transformação para se tornar um memorial de Siron Franco. Essa notícia nos aguçou para nossa visita seguinte, porque foi diante das obras de Siron que eu mais me demorei naquela tarde.

 

O ponto alto foi o encontro com "Expressões", tida como uma das maiores exposições já dedicadas a Siron Franco, em cartaz até o dia 30 de julho na Vila Cultural Cora Coralina. São mais de cem obras que percorrem cinco décadas de trabalho, e cada parede ali parece pedir do visitante algo além do olhar de passagem. Leopoldo Veiga Jardim, um dos idealizadores da mostra, resume bem o que senti diante delas: para ele, Siron não pinta apenas quadros, faz "biópsias do tecido social brasileiro". É exatamente isso. Naquele espaço, a gente perde o conforto de ser só espectador e se vê convocado a pensar, a encarar o que de costume preferimos não olhar.

 

O exemplo mais forte está na série que Siron criou em reação ao acidente com o Césio-137, ocorrido em Goiânia em 1987. No auge do pânico, quando boa parte do país tratava o estado como se tudo aqui estivesse contaminado, ele misturou terra goiana à tinta de algumas telas. Foi gesto e resposta ao mesmo tempo: a própria terra de Goiás entrando na obra para afirmar que aquele povo era muito mais do que a tragédia que lhe caíra em cima. Essa é a entrega que só os artistas verdadeiramente grandes alcançam, e Siron é o nosso maior exemplo dela.

 

Enquanto caminhava pelo espaço, admirando as obras, tive uma grata surpresa: dei de cara com uma parede inteira tomada por Madonas. Sou fascinado por elas, e ali a sensação foi a de ter mergulhado num lugar onde eu e elas nos encarávamos, como se também me enxergassem de volta. Siron pintou muitas: umas em diálogo com os temas sacros, outras que subvertem esse mesmo tema e propõem releituras do que pode vir a ser o sagrado feminino. Diante daquela parede, tive a sensação de quem foi observado fui eu, visto por dentro.

 

Saí de lá tomado por uma admiração difícil de medir. É raro ver alguém tão comprometido com o seu tempo e com a sua gente, que, ao fazer isso, toque no que há de mais universal. Que o seu olhar atento, Siron, siga inspirando as gerações que vêm, que tanto precisam de quem lhes mostre a realidade sem medo dela. A boa arte não nos tira do mundo, faz a gente mergulhar mais fundo nele. E a sua faz passado e presente conversarem, e é nesse encontro que ela o eterniza.

 

As obras de "Expressões", aliás, vêm de acervos de colecionadores particulares, e um deles me marcou em especial: Sebastião de Abreu, conhecido carinhosamente como Tiãozeira, um dos maiores guardiões da obra de Siron. Só nessa mostra são catorze quadros do seu acervo pessoal. Ele transformou o próprio lar num museu: telas, esculturas e estátuas de nomes brasileiros consagrados dividem espaço com a vida de todo dia, como se a arte tivesse encontrado ali o seu canto mais íntimo.

 

Voltei de Goiânia mais nutrido e também mais inquieto. É impossível ver tanta coisa boa reunida e não pensar no Tocantins. Nós temos artistas excelentes, gente que desenha, pinta, fotografa e esculpe com talento de sobra. O que falta não é capacidade, é oportunidade, incentivo do poder público e as vezes um empurrãozinho da iniciativa privada; falta a galeria que abre a porta, o edital que chega na hora certa, o olhar do curador que se vira para cá. Talvez eles ainda não tenham descoberto o que se produz entre o Bico do Papagaio e o sul do estado. Mas não tenho dúvida de que nossos artistas merecem essa atenção, e de que o dia em que ela chegar vai surpreender muita gente de fora.

 

Tenho a absoluta convicção que cultura não é enfeite, é alimento. Ela conta de onde viemos, dá nome ao que sentimos e abre uma janela para o que ainda podemos ser. Goiânia me mostrou o tamanho do que dá para construir quando há espaço e vontade. Que a gente consiga erguer algo parecido aqui, no nosso Tocantins, para que o povo tocantinense também tenha perto de si a arte que merece. Tenho fé de que vamos chegar lá.

Comentários (0)