A crise anunciada em Palmas e o provérbio da faca: pela lâmina ou pelo cabo?

Quando as coisas esquentam muito é sempre bom fazer uma pausa e esfriar a cabeça. Da posse do governador Siqueira Campos naquele primeiro de janeiro que começou com o episódio da faixa, até a sexta-feira, 18, do cancelamento do Concurso do Quadro Ger...

Li no twitter outro dia uma frase interessante que cabe bem nas reflexões que faço sobre a crise que se anuncia em Palmas à medida que se aproxima o dia daqueles milhares de comissionados pagarem suas contas e não houver mais nada para receberem do Estado. Dizia mais ou menos assim: "os contratempos se assemelham a uma faca: voltam-se contra nós ou podem nos servir dependendo da forma que os recebemos, pela lâmina ou pelo cabo".

É assim que quase 20 anos depois de chegar à Palmas assisto a cidade mergulhar na sua segunda crise econômica mais grave. Naquela cidade do começo dos anos 90 com suas ruas poeirentas e clima de faroeste caboclo a vida era um campo aberto de possibilidades. Tudo inspirava isto: efervescência nas construções, gente de todos os lugares do País, nada de tradições familiares insuportáveis engessando o mundo e as relações pessoais. Tudo em Palmas era promessa. De vida nova, de sucesso profissional, de conquistas básicas financeiras que todo trabalhador comum almeja quando deixa seu canto e se embrenha Brasil a dentro submetendo-se a toda sorte de sacrifícios necessários para conseguir “vencer”.

O que me intriga neste momento difícil pelo qual passa o Estado e especialmente Palmas, por ter uma economia em sua essência ligada ao poder público é que 20 anos depois, não vi a cadeia de dependência do governo se quebrar para a maioria dos trabalhadores.

Na capital tocantinense, tudo está direta ou indiretamente ligado ao fato do Estado e Município irem bem ou mal. Se tem dinheiro circulando em obras, e há uma massa de assalariados bem empregados o comércio vai bem, a rede de serviços vai bem e tudo prospera.

Só que hoje, dia 20, estamos a exatos dez dias das contas comuns, daqueles cidadãos comuns demitidos numa canetada no inesquecível 13 de janeiro, começarem a vencer. No começo deste fevereiro os exonerados receberam seus direitos trabalhistas. Para muitos representou mais do que o salário que estavam habituados a receber. E o Estado, religiosa e legalmente os pagou. Mas daqui há pouco a inadimplência estará aí, batendo na porta dos comerciantes de todos os ramos, bancos e financeiras, Celtins e Saneatins.

E Palmas já sente um acréscimo nas suas placas de vende-se casas e carros, e nos imóveis gradativamente desocupados. Quem tem para onde correr, corre. Seja para o interior, onde estão os pais, seja para onde for.

Na BR-153, uma viagem para o futuro

Passando pela BR-153, cenário de tantas viagens, vim cruzando os trilhos da Ferrovia Norte-Sul, saudada e esperada como a redenção no barateamento do custo do frete para produtos da região Norte do País. E fiquei pensando: o que vamos embarcar neste trem? Onde estão as indústrias que o Estado nunca atraiu apesar dos seus pujantes 22 anos? Poucas e tímidas iniciativas não alteraram muito o cenário econômico tocantinense. Nem o agronegócio, forte como só no Estado, tem conseguido transformar seus produtos de forma a agregar valor e gerar mais empregos.

Na parada em Porangatu para passar a noite do sábado, vi que o movimento da cidade era grande. Em pouco ou nada a cidade depende do governo de Goiás. O pouco que espera é aquilo que é obrigação de qualquer estado: saúde, segurança, educação.

Empregos, a produção se encarrega de gerar em boa parte do interior goiano. E descendo mais, quanto mais a estrada se aproxima de Goiânia, mais o movimento, as indústrias às margens da pista, vão aumentando.

Uma comparação mais justa

Aos que talvez estejam pensando que esta é uma comparação injusta, deixo claro que não é com a economia goiana que quero comparar a nossa de pouco mais de duas décadas depois do desmembramento do antigo, sofrido e então pobre Norte goiano.

Outra cena me vem à mente enquanto viajo no tempo: Luiz Eduardo Magalhães. Em 2004 estive lá para decifrar o “boom” da antiga Mimoso, numa reportagem especial para o jornal Alô Galera. Queria mostrar para os tocantinenses interessados em investir lá, o que estava acontecendo naquele lugar tão parecido com o nosso Sudeste, por serem tão próximas suas terras das nossas.

Lá entrevistei por horas o prefeito de LEM, produtor, rico ao extremo, marido de uma deputada estadual da região que me foge o nome. Depois de ouvir suas explicações sobre a política de atração de empresas que se instalavam lá e geravam empregos a ponto de faltar mão de obra, perguntei qual era a diferença entre as terras de LEM e as do Tocantins. Ele respondeu: “além de uma pequena diferença de altitude, acho que a política de atração de negócios”.

Dois anos depois voltando por lá percebi que ele estava certo: a cidade explodira, os imóveis dobraram de preço e longe de servir como os nossos, para exploração imobiliária, são adquiridos para serem ocupados.

Nestes tempos de crise em que vemos decisões duras e difíceis serem tomadas, só nos resta esperar que elas permitam ver retornar à Palmas, aos palmenses e aos tocantinenses de nascimento ou por opção aquela energia do começo.

Já não temos mais o problema das estradas. Já foi resolvido o problema da energia. Daqui há pouco teremos trens e centenas de vagões para encher dos produtos que dermos conta de colocar no mercado a preços competitivos. Que venham logo os dias em que os recursos públicos servirão exclusivamente para custear os serviços públicos. E que os agentes políticos que têm os meios e a obrigação de fazer, sejam mais eficientes em buscar e trazer o capital privado.

Para que os contratempos de hoje, nos sirvam como a faca: pelo cabo.

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