Fui parar, disfarçada de acompanhante, dentro do Hospital Dona Regina na noite passada. Acompanhava de fato uma parenta um pouco distante que chegou há algumas semanas para dar a luz na capital, mas passei desapercebida por porteiro, triagem, enfermeiros e médica ginecologista e obstetra, sem tratamento diferenciado ou especial.
Esperamos na fila, como todas as outras mães quase prontas para dar à luz aos seus bebês. Como jornalista não sossega sem perguntar, aproveitei para fazer minha “pesquisa de campo” por dentro do Dona Regina. Fico sabendo, numa das primeiras conversas, que a rotina dos plantonistas quadruplicou.
De uma média de 5 partos cada um, o número saltou para 20. A população da capital não saltou nesta velocidade. O que estaria acontecendo, então? A resposta mais óbvia pode estar no bate-papo com as enfermeiras: cada vez mais mulheres grávidas das cidades nos arredores de Palmas escolhem migrar para a Capital, a fim de terem seus filhos num lugar com maiores recursos para salvar suas vidas, caso seja preciso.
Estrutura física vive superlotação e precisa de reparos
Não passam desapercebidas as dificuldades do hospital: portas velhas de madeira, descascadas separando o pré-parto do corredor que leva ao centro cirúrgico; paredes de banheiro mofadas pela infiltração. O refeitório onde servidores e acompanhantes tomam café, ou almoçam, por exemplo, é um espaço mínimo. Mas não falta o sanduiche, uma fruta, o leite o café, um suco.
O que mais me chamou a atenção no entanto, foi mesmo o profissionalismo com que jovens médicos, enfermeiras experientes, servidores administrativos –e fiquei surpresa – até os porteiros, tratam quem vai chegando numa situação de pré-parto, seja lá de onde venha.
Pude acompanhar o que estão chamando de “parto humanizado”. Acontece para as parturientes que já deram á luz outras crianças, através do parto normal, e para as quais não há sinais de risco para a mãe ou para o bebê. Estas, não raro, dão à luz a seus filhos e filhas num ambiente limpo, higienizado, mas simples, com a interferência do profissional médico e uma ou duas enfermeiras. E logo em seguida, o pediatra está pronto para os procedimentos seguintes.
Profissionais comprometidos fazem toda a diferença
Inquirindo a médica que cuidava da mãe que eu acompanhei, descobri que a iniciativa tem entre os objetivos fazer com que a criança recém nascida entre em contato com a mãe o quanto antes, e seja amamentada logo na primeira meia hora em seguida ao parto.
Na manhã desta sexta-feira, 27, encontro o meu médico por ali, saindo do plantão, ginecologista e obstetra pioneiro em Palmas, Dr. João de Deus. Num período de 24 horas dentro do hospital, fez 20 partos. É demais para um profissional só. O que demonstra que o hospital carece também de maior investimento em recursos humanos.
No final de tudo que vi, no que hoje tudo indica ser uma sobrecarga na rede municipal e estadual de saúde em Palmas, ainda sai esperançosa. A infra-estrutura precisa e merece de urgentes reparos, mas os profissionais que estão fazendo a Saúde acontecer, pelo menos lá pelo Dona Regina, estão honrando o juramento que fizeram. Ainda que possam haver exceções no tratamento de um ou outro caso.
Na minha mente, depois de uma noite sem dormir, ficou entre tantas imagens a de uma senhora já de idade acentuada, caminhando com seu passinho miúdo entre uma ala e outra, com uma touca cor de rosa na cabeça e aquele ar nobre de quem cumpre satisfeita uma missão. Não consegui ler o nome no crachá da Litucera, mas não importa. Pra mim ela restou como símbolo de uma dedicação anônima silenciosa. Que a gente espera, seja valorizada.
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