Fidelidade partidária, só em torno dos mesmos interesses

Os partidos cada vez mais são os homens, e cada vez menos as idéias, os projetos, e o grupo. Saí do julgamento do primeiro caso de cassação de mandato de deputado por infidelidade partidária no Tocantins com esta firme convicção. O julgamento foi int...

Toda a discussão havida na corte eleitoral ontem, com argumentos e contra argumentos da acusação e da defesa, somados à brilhante exposição do procurador eleitoral, João Gabriel, e a leitura do relatório do juiz Hélio Miranda, dá muito o que pensar.

Na verdade o que deve estar em julgamento não é o homem em questão - deputado Paulo Roberto Ribeiro – mas sua atitude em desfiliar-se do Democratas no episódio da eleição indireta de Carlos Henrique Gaguim, quando percebeu que não teria o aval do partido para apoiar seu candidato, à época presidente da Assembléia Legislativa, ocupando interinamente o governo pós cassação de Marcelo Miranda.

Voltando a setembro

O que aconteceu de fato, testemunhado e registrado pela imprensa, é que a os deputados queriam eleger outro deputado. E ponto. Quem se articulou para isto foi Gaguim, e rápido. Para chegar a este objetivo, a Casa através de seu colegiado inicialmente dispensou os partidos da participação no processo sucessório numa lei questionada e que teve que ser mudada.

Depois, os deputados que já haviam acertado seu apoio ao governador, deixaram de acompanhar seus partidos.

Uns se desfiliaram, como foi o caso dos três ex-democratas que migraram para outros partidos e também do até então tucano, Stálin Bucar. Outros simplesmente votaram na eleição indireta, divergindo da orientação de seu líder partidário, como fez Raimundo Moreira, do PSDB.

Partidos de um lado, deputados de outro

O quadro que persiste até hoje, passados oito meses daquele período é o mesmo. De um lado estão os deputados que romperam com seus partidos para se aliar ao governador: Paulo Roberto, Stálin Bucar, Ângelo Agnolin e César Hallum. De outro estão os partidos que foram contra a participação nas eleições indiretas: PSDB e DEM.

À época, fiel mesmo à orientação partidária, só restou um: o deputado portuense Toinho Andrade, do DEM. Hoje, Raimundo Moreira está novamente integrado ao que pensa o partido, e Cacildo Vasconcelos segue no PP, esperando definições para traçar seu destino nesta eleição. Pode nem ser candidato.

Marcelo Lélis, presidente do PV, e José Geraldo, presidente do PTB são os que têm a posição mais confortável: comandam seus partidos e podem ficar onde quiserem, sem maiores questionamentos.

O partido é Gaguim

De certa forma, na mudança de siglas, quem enfrenta problemas são apenas dois dos quatro deputados que migraram do DEM e do PSDB, justamente os que foram para o PR, do senador João Ribeiro: Paulo Roberto e Stálin Bucar. Ao se acomodar no PR, o fizeram para seguir Gaguim, e agora não querem seguir Ribeiro de volta à União do Tocantins.

Filiados ao PR, o partido de Paulo Roberto e de Stálin Bucar, na verdade é Gaguim. A sigla é que é o PR. Por isto, saindo ontem do TRE após algumas horas de espera e depois de ouvir o que se desenrolou do julgamento, cheio de lances de inteligente argumentação de lado a lado, esta foi a conclusão que me restou.

Cada vez mais me convenço que com todo desgaste que sofreu por ser poder, e enfrentar escândalos advindos disto, o PT ainda é a referência que sobrou quando se fala em partido como sinônimo de programa, bandeiras, ou prevalência do grupo sobre a decisão de um líder. Mesmo sufocado pela forte imagem e popularidade de Lula, o PT ainda existiria e teria vida própria sem ele.

Por enquanto vamos vivendo no Brasil, e por consequência, no Tocantins, uma realidade em que os homens, suas vontades e interesses estão acima dos partidos e suas determinações. Dificilmente veremos uma decisão judicial provar o contrário.

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