Kit Anti-homofobia: apologia ou persuasão?

O articulista Renilson Cruz levanta a discussão sobre a aplicabilidade dos Kit Anti-Homofobia que teve a distribuição suspensa pela presidenta Dilma Rousseff. "Contudo, acredito que costumes e transcendentalismos podem ser ultrapassados e podere...

Até quando vamos ter que repetir que o Estado é laico para que os cidadãos brasileiros, e sobretudo os políticos, se conscientizem de que neste país não há religião oficial e nem as religiões podem interferir em decisões que envolvam a vida de todos?

Eu francamente não acredito que as palavras de Bolsonaro proferidas contra seres humanos sejam sinceras. Temo que talvez nem ele acredite no ele que diz, mas o fato é que, por ser ele um parlamentar e, por consequência, ter vantagem midiática, suas palavras têm ecoado e instigado o preconceito e a discriminação contra semelhantes humanos.

Isto, sim, não é proibido, apesar de que todas as cartas máximas rezem que ninguém será discriminado por todas aquelas coisas que já sabemos, mas que fazemos questão de não dar importância, porque o que importa são os costumes.

Barganhas à parte, a presidenta Dilma suspendeu a distribuição do Kit Anti-homofobia depois de tanta polêmica levantada pela Bancada Evangélica. Ela disse que "todo material que versa sobre costumes será feito a partir de consultas mais amplas à sociedade".

Contudo, acredito que costumes e transcendentalismos podem ser ultrapassados e poderemos combater o preconceito, a discriminação e atentados contra os Direitos Humanos. Pois, até bem pouco tempo, era costume bater em crianças, xingar negros, humilhar mulheres e queimar índios.

Nesse ritmo, o movimento LGBT, que é massacrado em nome de Deus, defende apenas que haja discernimento e bom senso nas discussões. Queremos debater, mas com justiça, com reconhecimento da igualdade de cidadãos que somos, um debate fora do tema religioso. Pois cumprimos com nossos deveres de cidadãos, mas ainda temos que implorar pelos nossos direitos.

Somos milhares e, apesar disso, não queremos impor nenhum comportamento senão o do respeito ao próximo. Lutamos pela aprovação do PLC 122, que criminaliza a homofobia, mas estão dizendo que queremos proibir a liberdade de expressão, como se esta fosse máxima ao respeito, à não discriminação. Lutamos pela aprovação da união civil, mas dizem que queremos destruir a família.

Ora, sempre existimos e a família nunca acabou, tampouco a espécie humana corre risco de ser dizimada. Tentamos incentivar o respeito ao próximo na escola, já que os pais não o fazem em casa, mas fomos barrados sob o argumento de que queremos ensinar a homossexualidade. Como se orientação sexual fosse ensinável.

Psicologia e Medicina já disseram que homossexualidade não é uma patologia, mas, a exemplo de quando Galileu Galilei foi perseguido, recusam a ciência. Tudo está sendo deturpado com maledicência e sem motivos aparentes, senão por sentimentos subjetivos de contrariedade.

Se ninguém viu os vídeos do Kit Anti-homofobia, ele está na internet, para quem quiser conferir, inclusive as crianças. A diferença é que se fossem passados nas escolas teríamos a chance de um educador ajudar o adolescente a interpretar. Assim como se deve ensinar respeito, amor, solidariedade.

De resto, acusam o Kit Anti-homofobia, e assim nos acusam, de fazer apologia ao homossexualismo. Sim, é verdade, fazemos apologia à homossexualidade. Mas apologia não é persuasão. Sobretudo porque homossexualidade não é contagiante. Se há tentativa de persuadir alguém a algo, ela está em intuir o respeito ao próximo.

Renilson Cruz é licenciado em Letras pela Universidade Federal do Tocantins. Revisor de Textos, editor do blog Via de Revisão. Secretário-Geral da Organização Não-governamental GIAMA (Grupo Ipê Amarelo pela Livre Orientação Sexual). Coordenador da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros) no Tocantins Representante da ArtGay (Articulação Brasileira de Gays) no Tocantins Conselheiro Estadual de Direitos Humanos (ATO Nº 2.550, DOE-TO de 06/04/2010).

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