Música boa? Minha mulher não deixa não!

Como anda o gosto musical do brasileiro hoje? Quais são as reais preferências musicais? O jornalista Flávio Herculano discute o panorama musical e fala sobre o atual consumo da música. "Na época, vivia-se os parâmetros estabelecidos pela Bossa N...

Você imaginaria o horário nobre da TV brasileira, em vez das telenovelas açucaradas e lacrimosas, ser preenchido por musicais com estrelas da MPB? Num dia, Marisa Monte e Carlinhos Brown cantando e apresentando seus convidados. No outro, Zizi Possi e Eduardo Dussek resgatando pérolas do cancioneiro popular. E, ainda, dividindo palco e vocais, um par fixo formado por Arnaldo Antunes e Roberta Sá?

Você acredita mesmo ser viável a uma emissora privada, que precisa manter as contas no azul, sustentar uma programação destas no horário de maior audiência, considerando o nível cultural e as preferências do público brasileiro? A massa, do empresário à diarista, garantiria audiência (e anunciantes)? Hoje até existem musicais de bom nível nos canais abertos, mas nunca exibidos antes das 23h. Nem sempre foi assim...

Nos idos de 1960 a TV Record conquistava o público fazendo dos musicais sua principal atração. Elis Regina e Jair Rodrigues apresentavam o programa O Fino da Bossa e Elizeth Cardoso e Ciro Monteiro o Bossaudade, enquanto os introspectivos Chico Buarque e Nara Leão, acompanhados do MPB4, encaravam as câmeras à frente do Pra Ver a Banda Passar.

Pasmem, há 40 anos estes eram ídolos das massas. Faziam uma música, realmente, popular brasileira. Eram os mesmos que levavam o público a lotar estádios nos históricos festivais, em torcidas organizadas, portando faixas e cartazes. O povo vibrava, aplaudia, vaiava, defendendo junto com seus ídolos canções que sequer tinham sido gravadas. Tal qual fazem hoje com um Fiuk, as mocinhas colavam em seus cadernos as fotos de Chico Buarque.

Na época, vivia-se os parâmetros estabelecidos pela Bossa Nova. Chico, Caetano, Gil e seus companheiros faziam um som inovador, de rompimento com a grandiloquência da Era do Rádio. E eram bem aceitos pelas massas, muito diferente do que acontece hoje com os artistas que rompem com os padrões estéticos.

Com a Bossa Nova, as grandes vozes e os excessos dramáticos passaram a ser taxados de brega. Ou cafona, como se dizia. Nomes como o de Ângela Maria e o da rainha do rádio Dalva de Oliveira e até o regionalismo de Luiz Gonzaga foram considerados ultrapassados, colocados no mesmo saco que renegados como Valdick Soriano e Odair José.

O tempo passou e o gosto musical do brasileiro foi sendo doutrinado para atingir o nível mais baixo, progressivamente, a cada golpe sofrido: lambada, axé, forró de plástico, sertanejo, calipso e agora o sertanejo repaginado como “universitário”. Completando este panorama, a pirataria se institucionalizou, o mercado fonográfico se enfraqueceu e a internet abriu espaço a toda espécie de bizarrice produzida em fundo de quintal, absorvida por uma geração já sem referências. Não por acaso, uma geração a quem falta também senso crítico, educada por duas instituições falidas: família e escola.

Deste modo, versos de Valdick Soriano, outrora considerado supra-sumo mau gosto, hoje soam até poéticos (De que vale ter tudo na vida/ De que vale a beleza da flor/ Se eu não tenho mais teu carinho/ Se eu não sinto mais teu calor seriam aplaudidos pelos jovens “cabeça” se cantados pelo Los Hermanos). Vou mais além: até a música de Gretchen já ecoa como bem produzida se comparada ao Rebolation.

Será quem num futuro não muito distante vamos cultuar Minha mulher não deixa não como uma música despretensiosa e bem superior ao que estará sendo feito para as massas?

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