É evidente que o Estado aumentou, na prática, o grau de intolerância quanto às bocas de fumo e pontos de venda de drogas. Nas últimas semanas ações envolvendo Inteligência e policiamento ostensivo têm sido responsáveis pela apreensão de crack, Oxi, cocaína e pasta, prisão de traficantes na capital e fechamento de pontos de venda.
É um a luta inglória, mas necessária. Inglória por que - como disse um delegado da área outro dia durante entrevista - “a polícia fecha uma boca hoje e ela reabre no dia seguinte em outro lugar”. É necessária por que nossa sociedade está doente, do uso de substâncias tóxicas que alimentam a fuga da realidade, e a rede do crime que sustenta o vício. Parece uma corrida de ratos contra o próprio rabo e que nunca termina.
Nos últimos dias, cada vez que este assunto vem à tona nas manchetes de notícias de apreensões e prisões, há uma reação de internautas nas redes sociais debatendo o assunto e apontado uma falha imensa na cadeia de combate ao avanço do uso, e por conseqüência do tráfico de entorpecentes: o usuário.
Ações de prevenção ao uso e clínicas de recuperação de usuários
Este, que consome e sustenta a rede criminosa, vive três momentos: o de consumir, achando que tem controle sobre o vício; o de entrar em processo auto-destrutivo pelo consumo desenfreado (que consome bens, e a famíla junto) e o de querer parar de consumir, para salvar a vida, em última instância.
Qualquer combate ao uso crescente de drogas, precisa passar pelo usuário e sua família. Mais do que isto: oferecer serviços médicos, clínicas de desintoxicação e reabilitação é dever do Estado. No Tocantins esta ponta não existe. Os usuários de drogas pesadas, e das quais a saída é mais que difícil não encontram respaldo na rede pública de saúde para isto.
Em via contrária, os recursos públicos patrocinam sem limite de responsabilidade, o consumo de drogas lícitas, ao apoiar eventos onde seu uso é indiscriminado e porta de entrada para outros vícios. É impossível vencer uma guerra assim. Os recursos públicos devem ter outro uso, e o Estado não pode se eximir da sua responsabilidade no tratamento dos doentes do corpo e da alma, mergulhados no vício, delegando às instituições religiosas o que é da sua obrigação.
Sei que defender esta linha de raciocínio pode parecer moralismo exacerbado, mas este tipo de julgamento não me preocupa. O que estamos vendo no dia a dia, é a atuação das forças policiais numa ponta, reprimindo o que pode ser reprimido: o tráfico. E de outro lado, o consumo de drogas ilícitas em Palmas acontece livremente nas praças, acuando os cidadãos que não usam, e transformando em prática corriqueira o que deve ser reprimido, sem a menor sombra de dúvidas.
Consumo livre nas praças e vias públicas: ninguém incomoda usuários
Internautas reclamam nas redes – Twitter e Facebook - que não adianta chamar a polícia se há um grupo de jovens bebendo, se drogando e incomodando a vizinhança altas horas da madrugada: ninguém vai. À luz do dia, também não há abordagem nem intervenção a quem é “apenas usuário’, e está calmamente satisfazendo seu vício em vias públicas e praças. É o fim chegarmos a um tempo em que nada possa ser feito quanto a estas práticas.
O Tocantins não vencerá a guerra contra as drogas apenas com a polícia. O esforço é conjunto, as responsabilidades precisam ser divididas e o usuário também precisa ser alvo de ações do poder público em duas frentes: a que impeça o uso público e indiscriminado de drogas, e a que resgate quem precisa e deseja sair deste barco.
Sem falar no óbvio: antes de se tornar usuário, o cidadão – jovem ou adulto – precisa ser bombardeado por ações e informações na linha da prevenção. O drama vivido por dependentes e suas famílias incomoda e sensibiliza quando é exposto de forma nua e crua. Sem firulas. Sem discurso bonitinho e vazio.
Ainda há tempo, mas vai custar esforço concentrado, recursos bem aplicados e mais inteligência e ações conjuntas das autoridades de Estado para vencer esta guerra, contra um inimigo silencioso e covarde. Este que vai se infiltrando dentro de nossas casas, e matando pouco a pouco as pessoas que amamos, dia após dia.
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