O uso de convicções religiosas por candidatos homofóbicos

Quero parabenizar aqui a Roberta Tum pelo brilhante e esclarecedor editorial do dia 18 de agosto ("A perigosa mistura de religião com política para fins eleitorais"). Não é por outra razão, senão pela admirável e exemplar postura da jornali...

 

A homofobia já matou cerca de 25 homossexuais no Tocantins desde 2002. Os dados são do GIAMA (Associação Grupo Ipê-Amarelo pela Livre Orientação Sexual), única ONG LGBT de Tocantins, e organizadora da segunda maior Parada do Orgulho Gay da Região Norte do Brasil, que este ano, em sua 7ª edição, contou com a participação de mais de 10 mil pessoas. Só Araguaina, segunda maior cidade do estado, teve mais de 200 representantes no evento.

O tema da Parada este ano foi "Vote não homofobia, sim cidadania", cuja finalidade era conscientizar as pessoas a não votarem em políticos homofóbicos. O Tocantins, é importante que se diga, é o único estado brasileiro que não tem representantes na Frente Parlamentar Mista pela Livre Expressão Sexual do Congresso Nacional, o que demonstra o desinteresse dos políticos tocantinenses por este público. A Frente, de caráter supra-partidário, tem como objetivo reunir todos os parlamentares do Congresso Nacional comprometidos com os direitos humanos, com o combate à discriminação e o preconceito.

Este ano, vale acrescentar, vários políticos tocantinenses, inclusive os candidatos ao governo do estado, foram convidados a participar da Parada. Contudo, como nos 6 anos anteriores, nenhum político de renome apareceu. O medo de perder votos é, sem dúvida nenhuma, uma das grandes razões para essa lamentável realidade. Contudo, antes de justificar a omissão, esse temor só torna ainda mais indigno o desinteresse político pelos homossexuais do estado. A covardia dos políticos do nosso estado, todavia, é aplaudida por muitos e, como não poderia ser diferente, rende votos da massa ignorante e preconceituosa.

Embora não se admita oficialmente, o Brasil é um dos países mais homofóbicos do mundo. A cada dois dias, segundo o Grupo Gay da Bahia (GGB), um homossexual é barbaramente assassinado. No Tocantins, a homofobia, embora mais velada, continua a fazer as suas vítimas. Há pouco mais de um mês atrás, um universitário homossexual de Araguaina fora brutalmente assassinado a capacetadas. A razão: era homossexual.

O candidato homofóbico não perde a oportunidade de, sob o pretexto de defender as suas convicções, incitar o ódio aos homossexuais. Donos de uma cretinice absurda, de um cinismo absolutamente grotesco, defendem com unhas e dentes o suposto direito que tem de ofender, discriminar e oprimir, mesmo que “sutilmente” o homossexual. Falam em nome da liberdade de expressão, mas querem mesmo é ter liberdade para pregar o preconceito em seus ninchos.

Afirmam despudoradamente que os militantes homossexuais querem implantar uma “ditadura gay” no Brasil. A “ditadura da ignorância”, pelo visto, eles próprios já cuidaram de criar. O “gayzismo” (palavra caprichosamente criada por fanáticos religiosos), segundo eles, quer destruir a família brasileira. Parecem desconhecer o fato de que é a homofobia, essa patologia que pregam desavergonhadamente, que destrói milhares de famílias no país inteiro. Ou será que os “defensores da família” não sabem que milhares de homossexuais são expulsos todos os anos do seio de suas famílias, sendo privados de ter um mínimo de dignidade?

A verdade é que enquanto os políticos do nosso querido estado, movidos pelo erro grosseiro de misturar religião e política num país laico, tem medo de perder votos, pais e mães de homossexuais tocantinenses tem medo de perder algo muito mais valioso: os seus filhos.

Daniel Lélis, é universitário cursando o 8º período de Direito, militante de Direitos Humanos, representante do GIAMA em Araguaina e colunista da revista Jfashion. Suas ideias estão no www.danlelys.blogspot.com"

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