Processos de lotes vendidos em condições suspeitas desaparecem do arquivo: elementar, meu caro Watson!

A história do sumiço de 214 processos de venda de lotes públicos, comerciais em quadras bem valorizadas da capital é de desafiar a inteligência de todos nós, pobres mortais. Processos sob a guarda do Estado, no arquivo da Secretaria de Habitação, des...

Não é segredo para ninguém que centenas de processos estão sob o pente fino da Codetins, Sehab e Procuradoria Geral do Estado nos últimos meses para que as autoridades públicas descubram de que forma foram vendidos, ou dados em pagamento lotes públicos. São muitos lotes, em diversas quadras e já abrimos aqui reportagens especiais mostrando preços, dados de escrituras, ações do Ministério Público Estadual.

Pois bem. Na quinta-feira, 19, seis horas da tarde, o arquivo da Sehab foi trancado, e reaberto pelos servidores responsáveis, ao que tudo indica, apenas ontem, segunda-feira, 23. Neste intervalo, “o Sombra”, atacou. Pelo menos é o quea história toda dá a entender.

Sem sinais evidentes de arrombamento, 214 processos desapareceram. Cada processo deste se refere a um lote sob suspeita de ter sido entregue em situação de favorecimento. A lista revela áreas na ACSV SO 44, ACSVE SE 40, entre outras, com número menor e ocorrências mais esparsas.

Quem levou não arrombou e saiu pela porta da frente

Agora, eu pergunto, como é que alguém entra num final de semana, ou feriado, num órgão público, sem arrombar as portas, vai ao arquivo e subtrai 214 processos? Se não tiver poderes sobrenaturais, teria que ter a chave, não é mesmo? Elementar, meu caro Watson.

E de novo, pergunto: chamaram a perícia? Recolheram as digitais? Estas portas tiveram as fechaduras trocadas, como foi feito na ala diametralmente oposta, onde fica a Codetins, alvo do primeiro furto logo que o governador assumiu, ainda em janeiro? Ou a turma do passado, que vendeu e deu lotes, também tem cópia destas chaves?

Lendo a entrevista do presidente da Codetins fico sabendo que os processos são da empresa, mas estavam sob a guarda da Sehab. E mais: que a única segurança é um vigia (guarda, desarmado), um ASG (Auxiliar de Serviços Gerais) que toma conta do prédio no final de semana, entre um programa e outro que assiste na TV.

Daí, volto a perguntar: é brincadeira, não é? Por que garantir a segurança destes documentos públicos, é o papel dos gestores da pasta. Não tem meia explicação. E percebo, na suspeita que recai sobre servidores da antiga gestão que permaneceram – ou foram demitidos e retornaram pelos poderes de algum super amigo – que há algo de muito podre no ar.

Suspeito tem que ter nome, sob pena de manchar a reputação de inocentes

Como é que diante da suspeita de que servidores participaram de algum esquema ilícito, o Estado não afasta, encosta, manda para casa os efetivamente suspeitos, enquanto manda investigar de forma séria o assunto? De novo, só pode ser alguma piada de mau gosto.

Não se pode espalhar a dúvida sobre todos os servidores, por que isto significa manchar reputações ilibadas com a sombra de suspeitas, muitas vezes infundadas. Agora, preservar quem tem culpa no cartório por que alguém pediu, é de doer na alma do contribuinte.

Acredito que esta não é a intenção do governo: varrer a sujeira para debaixo do tapete, permitindo que desapareçam no ar – ou pela porta da frente – 214 processos de suspeitas vendas de lotes. Pelo menos até que me provem  o contrário.

De duas, uma: ou quem tem o poder de agir, faz isto e assume a responsabilidade, ou essa coisa toda de investigar e retomar áreas entregues ilegalmente vai ficando cada vez mais desacreditada. Quem tem competência, se estabelece. Quem não tem, como diria o Capitão Nascimento, faça o favor: pede pra sair.

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