Falar da estrutura militar é sempre difícil para quem não se insere nela, especialmente para entender os conceitos que sustentam todo funcionamento de uma instituição como a Polícia Militar, independente de onde, em que estado, ela esteja.
A PM no entanto, faz parte da vida do cidadão, do civil que é leigo. Volta e meia acontecem fatos dentro ou fora das paredes dos quartéis, que nos fazem pensar. Nos últimos anos, são muitos os questionamentos em torno do que pode ou não ser admitido como prática legal e aceitável por parte de militares. Estes militares e não soldados do Exército Brasileiro.
Soldado, militar, já pode votar. Mas será que pode fazer greve, já que atua numa frente fundamental, que é a segurança da população? Soldado pode matar, no exercício da função precípua de defender o cidadão e defender-se em confronto com bandidos. Mas até que ponto o ato de puxar o gatilho pode ser referendado pela sociedade sem questionamentos, quando morrem inocentes em ações como a que tirou a vida do almoxarife em Palmas, no recente Caso Everaldo, ainda a ser definitivamente esclarecido?
A autoridade que repousa sobre a razão
Hierarquia e disciplina, dois conceitos tão caros à ordem que deve prevalecer dentro da estrutura militar sofrem fortes abalos quando decisões esdrúxulas minam a confiança dos integrantes da corporação. Exemplo? promoções concedidas com critérios políticos e de relações interpessoais passando por cima dos outros que devem prevalecer, a exemplo da antiguidade, merecimento e demais previstos na estrutura militar.
É fato que polícia que não obedece a comando, acaba se tornando milícia armada a serviço de outros interesses. Mas o caso que aconteceu esta semana no Acre, e que está contado na página da União de Blogs de Policiais e Bombeiros do Brasil, nos faz pensar sobre uma coisa que soa absurda: a obrigação na hierarquia que prevalece na Polícia Militar, de que Soldados não possam ocupar funções de assessoria, ou que requeiram o uso do cérebro, além dos músculos. De soldados espera-se apenas que executem ordens.
Ora, há um problema sério nisto aí. Primeiro, por que soldado é cidadão. Segundo, por que para ingressar na carreira militar, e ter direito a um salário base e todas as vantagens de pertencer à coorporação, basta passar num concurso e fazer o curso de formação. Mas depois disto, nada impede o cidadão, policial militar, de continuar estudando, de buscar seu crescimento profissional, muitas vezes atrasado dentro da estrutura militar.
E é aí que o bicho pega, como pegou para o SD Raiele Barbosa, da PM do Acre, nomeado e exonerado do cargo de assessor de imprensa.
O "sistema" consegue conviver com praças bem preparados?
O fato de existirem praças com nível superior e que não param de estudar, refletindo e questionando assim ordens de superiores mal preparados e acomodados é um câncer que vai corroer a instituição Polícia Militar, se não forem criados mecanismos que permitam crescimento baseado no melhor preparo. Tem gente que começa e termina carreira na PM sem evoluir nada em conhecimento. Tem quem adquira patente intermediária e morra com ela. E tem outros que se esforçam, mas como ainda há quem associe conhecimento a perigo, mofam, anos na mesma patente, ou falta dela.
Compreendendo o quanto é difícil para qualquer profissional do jornalismo fazer assessoria de comunicação para uma instituição militar - sem pertencer aos seus quadros – fica difícil entender por que o comando da PM do Acre cedeu às pressões para retirar da função um soldado que começou tão bem.
“"Eu disse que tirava minhas estrelas do ombro se o soldado ficasse muito tempo na função. Não tive por porque tirá-las", disse um dos oficiais incomodados com a nomeação. No curto tempo que permaneceu na função, o soldado Raiele Barbosa deu visibilidade às ações da PM do Acre, apresentou um projeto de comunicação para o rádio, outro para TV, e também um que previa uma publicação impressa de caráter institucional. Mostrou competência para a função, mas incomodou oficiais de patente superior no Acre, São Paulo e Minas Gerais.
O “mau exemplo’ do comando da PM do Acre, foi prontamente corrigido com a exoneração. Mas o fato levantou a lebre no País inteiro. Por que é que soldado não pode pensar? E pensando, por que incomoda tanto? Há um velho provérbio árabe que diz “a autoridade repousa sobre a razão”.
O conhecimento não respeita a barreira imposta pelas estrelas e insígnias que brilham numa farda bem engomada e passada, se em quem as ostenta não houver também o entendimento, o saber, que empresta legitimidade à autoridade do oficial. Há algo que incomoda muito crescendo dentro da estrutura das PM’s em todo Brasil.
Algo que só é problema, se não for enfrentado e resolvido. Afinal, a Polícia Militar não tem fim em si mesma. Existe para garantir na parte que lhe cabe, a segurança da sociedade. Por isso se espera dela não somente força, mas inteligência, coerência e competência.
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