A traição, caro leitor, é algo tão antigo quanto a arte, mas isso não a torna tão soberana quanto. Dos poucos amigos que tenho, um deles certa vez disse: “Todo mundo um dia será traído. Aqueles que ainda não foram, é uma questão de tempo”. E isso, claro, independente de sexo, raça ou religião, situada em qualquer tipo de relação entre humanos.
Confesso que as palavras desse amigo chamaram minha atenção pelo tom profético, não por sua essência. Poucos dias depois fui forçado a acreditar. Chegara a minha vez de dar a costas ao punhal; de ser traído (se não foi isso, não sei como nomear esse gesto) por alguém publicamente próximo, que me “esfaqueou pelas costas” – narro assim devido a insistente sensação de dor física em vez de apenas emocional.
No mesmo barco afundado eu não estava só, havia também uma porção de gente com contas a pagar. Porem havia um Deus capaz de nos deixar ilesos e com saúde para continuar lutando.
Em geral as traições são oportunistas. Amigos, parentes, colegas de trabalho, casais, não têm a intenção de trair uns aos outros. Isso simplesmente ocorre quando surge uma oportunidade favorável, quando as vantagens do traidor prevalecem mais que os prejuízos do traído. Consertar uma relação de confiança violada requer um esforço imenso, isso quando o episódio gera condições de reparo.
As pessoas que foram vítimas de traições vivem como débeis sociais, com o “pé atrás” em qualquer decisão. Elas estão em constante alerta e fragilizadas.
Enquanto não vem à luz um remédio capaz de curar esse tipo de dor, no meu caso, tento absorver esse golpe que, de fato, doeu, e muito, buscando outro ofício, outras atividades. Todo mundo, algum dia, certamente, já passou por experiência comum. Alguns ignoram e tocam suas vidas, como se nada houvesse acontecido. Outros, porém (como eu), ficam com suas convicções sobre companheirismo/amizade abaladas e acabam, até, sendo injustos com os fieis amigos, aqueles que sempre expuseram lealdade e presteza no servir e ouvir.
Pode ser que até tenha sido levado pela subjetividade, mas pude identificar nesse meu personagem desleal traços físicos do ilustre personagem de Péricles (da Revista “O Cruzeiro”). Com o tempo, percebi que não se tratava de “um amigo”, mas de um originalíssimo “amigo da onça”. Analisando assim, constatei que, “tocar na onça com a vara curta” é menos perigoso que contar com amigos que a estima.
*Danilo Neres é jornalista
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