A internet realmente revolucionou a cobertura política, e vai mudar a história desta eleição. É que os leitores não estão mais reféns de uma única versão dos fatos por dia: a que sai impressa nas páginas de um jornal. Vejamos o turbilhão provocado ontem pela denúncia da senadora Kátia Abreu (DEM), na PRE, seguida de visita à PF, para relatar o que ouviu do prefeito João Tabocão (PMDB).
Todas as matérias estão postadas para quem quiser rever a novela da vida real passo a passo, mas vamos resumir a ópera: Tabocão disse a João Oliveira, seu deputado federal, que foi procurado com a proposta de remuneração financeira para apoiar o governador e candidato Carlos Gaguim (PMDB). Uma cifra meio inacreditável (R$ 300 mil para um prefeito de cidade pequena, com número de eleitores equivalente a um bairro pequeno de Palmas) tinha lhe sido oferecida.
A ser verdade, seria um absurdo inominável, façam as contas: 300 mil vezes 100 municípios (total de prefeitos que apóiam Gaguim). Sim, por que se João está recebendo isso por Tabocão, no mínimo, outros também estariam. Mas, quero sair do campo das hipóteses e das denúncias não comprovadas, para ficar nos fatos ocorridos ontem. Se existe um crime, já disse e repito, somos imprensa, e não polícia. Cabe à PF investigar, são bem pagos para isso.
A notícia, e nós atrás dela
O que é notícia, pura e simplesmente pela ordem cronológica é: a denúncia da senadora na PRE e na PF, a entrevista por telefone do prefeito Tabocão a mim e ao Cléber Toledo (Portal CT) falando quase a mesma coisa, e a negativa publicada hoje pelo JTO.
Justiça seja feita, Tabocão me pediu tempo. Queria falar apenas depois das três da tarde. Mas sabedora de que notícia quente assim não espera duas horas, coloquei logo as negativas dele no ar. Ele explica: estava ao lado dos supostos aliciadores, não podia confirmar a tentativa de aliciamento antes de concluída, e queria fazer um flagrante.
Só quem pode dizer se havia flagrante armado para ontem à tarde é a PF. Estou à procura do delegado Onassis desde cedo, identificado por Tabocão como o responsável pela operação. Mas o fato, como bem disse hoje em seu artigo, o blogueiroLuiz Armando, é que sem flagrante não há crime, sem provas não há crime. Só resta a acusação. E esta, diga-se de passagem, está truncada.
As versões em tempo real
O problema que a internet trouxe aos políticos e todos aqueles que dizem alguma coisa e depois desmentem é, numa linha inversa e proporcional, o benefício maior que a população com acesso à rede ganhou com o fortalecimento de veículos de comunicação na web: a rapidez. Dez minutos depois dadenúncia protocolada por Kátia no MPF, a matéria estava no ar, com foto, aqui no Site RT.
Uma hora após negar que tinha feito a denúncia, Tabocão foi desmentido, também aqui no Site RT, pelo delegado Hugo Hass, que achou estranho a negativa. Se estava tudo combinado com o Dr. Onassis e ninguém sabia - nem mesmo o superintendente da PF, conforme se lê no JTO de hoje – nós também dificilmente poderíamos descobrir. Dá-se a isso o nome de sigilo policial, mesma coisa que resguarda a cópia do depoimento dado por Tabocão à PF antes da coisa toda estourar.
No fim das contas, me resta a sensação de que ontem, fizemos o dever de casa, correndo muito atrás do fio desta meada. A esta altura da cobertura política da campanha, não se pode ignorar os fatos, e as versões dos fatos. Uma vez contraditórias, elas acabam revelando muito mais.
Antes que esta quarta-feira de sol raiasse e chegasse às bancas a mais nova versão contada por João Tabocão ao Jornal do Tocantins, nós dos sites mais assíduos e acessados na cobertura política do Estado, já havíamos feito revelar ao leitor e eleitor tocantinense mais uns bons capítulos da novela dessas eleições.
O que eu quero de fato saber e ainda não sei, é o que há de verdade na denúncia apresentada a quem tem por obrigação investigar e punir crimes eleitorais. A resposta que a população tocantinense espera e merece deve vir da polícia. Afinal da imprensa não se pode esperar que investigue crimes, da polícia se espera mais que versões e da vítima que não troque de papel com o bandido. Aliciadores, se existirem, devem ser revelados à luz do dia.
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