À Dona Alcides, minha mãe... Com amor

Crédito: Acervo Pessoal

Há coisas que não se explicam, apenas são sentidas. E eu, que passei a vida inteira aprendendo a organizar o mundo em palavras e em leis, ainda não encontrei a linguagem exata para dizer o que é uma mãe... O que foi a minha mãe. Talvez porque ela não caiba em nenhuma definição que eu conheça. Ela era, simplesmente, o amor. E o amor é maior do que qualquer vocabulário que eu possa alcançar.

 

Ah, Antonia Alcides Praxedes... Dona Alcides. Minha mãe.

 

Ela nasceu em 1931, no distrito de São Mateus, em Crato, no Ceará. Mas o Ceará, para mim, é apenas o lugar onde o mundo teve a bondade de começar a prepará-la antes de nos dá-la. Ainda muito jovem, foi com os pais para a região de Colinas, no Maranhão, e ali, naquele chão que misturava roça e destino, ela encontrou meu pai, Raimundo Praxedes Sobrinho. Casaram-se quando ela tinha quinze anos. Quinze anos. Eu penso nisso e me pergunto: o que é ter quinze anos e já saber, com a clareza que só o instinto tem, que aquele é o seu caminho? Ela sabia. Ela sempre soube as coisas antes de poder explicá-las.

 

Por volta de 1946, fizeram uma grande travessia até o Norte de Goiás. Para Nazaré, então distrito de Tocantinópolis, aquela terra que ainda não tinha nome de estado próprio, mas já tinha alma suficiente para criar uma família inteira. Instalaram-se em Piaçava. Meu pai comprou terras, abriu comércio — vendia sal, querosene, tecidos, fazia permuta por coco babaçu, couro, bovinos, equinos e até caprinos. Era um comércio variado que vendia com alcance até no atacado. E minha mãe? Minha mãe não se prendia à cozinha. Ela estava sempre ao lado do meu pai no balcão, nos registros, no movimento da vida prática do comércio. Ela era presença ativa naquele mundo. Era assim: inteira, em todos os lugares ao mesmo tempo.

 

Mas os anos passaram, e com eles vieram as dores que ninguém escolhe.

 

Ela queria uma família grande. Teve onze filhos no coração, mas a vida cobrou um preço alto por esse amor. Cinco deles nasceram e foram embora antes de poder ficar. Eu não sei como se atravessa isso. Não sei como uma mulher perde filho após filho e ainda encontra fôlego para continuar querendo, para buscar tratamento, para insistir no milagre da vida. Mas ela encontrou. Fez tratamento. E conseguiu. Vieram quatro filhos que ficaram, entre eles, eu. Depois, mais um, que também partiu ao nascer. Ela sempre acreditou que o amor não se mede pela quantidade de vezes que ele chega, mas pela profundidade com que ele fica. E o dela ficou. Em todos nós. Para sempre. 

 

Graças a ela, atravessei uma infância tranquila. As férias eram na fazenda, longos períodos em que crescíamos sob seus cuidados com uma liberdade que hoje reconheço como presente: a liberdade de correr sem destino, de brincar sem hora. Mas eram as noites que guardavam o melhor. Ela contava histórias: os mais diversos romances de cordel, vários deles de cor, porque como boa nordestina que era, o sangue cearense florava em suas veias e ela os declamava com a naturalidade de quem carrega a palavra como herança. Cada noite chegava cheia de suspense, de viradas, de momentos em que a gente prendia a respiração... mas o final era sempre feliz. Ela não nos deixava dormir com o peso do mundo. Isso também era amor. 

 

Existe um momento que carrego comigo como se fosse uma fotografia viva, uma daquelas que a gente não precisa guardar em álbum porque está impressa diretamente na alma. 

 

Era o final da década de sessenta e eu entrava para o Ginásio no Colégio Dom Orione, em Tocantinópolis. Foi exatamente nesse momento, quando eu começava a minha jornada escolar mais séria, que minha mãe decidiu que a dela também não havia terminado. Com a mesma determinação tranquila de quem sabe o que quer sem precisar anunciar, ela voltou a estudar. Também cursou o Ginásio na mesma cidade, no Colégio das Irmãs da Divina Providência, sob o comando da superiora Madre Ave Maria. E ainda nesse período, passou no concurso público de professora. Não era vaidade. Não era necessidade financeira apenas. Era algo mais profundo: era ela sendo fiel à ideia de que a educação é, acima de tudo, um ato de respeito por si mesma. 

 

No Centro de Formação de Professores ingressou para iniciar o segundo grau. E foi professora — alfabetizadora, formadora de gente — por muitos anos, em várias escolas de Tocantinópolis, entre elas o Colégio Estadual "15 de Novembro". Ela acreditava na educação com uma fé que eu só vi comparável à fé religiosa. Ela dizia, com a voz firme e os olhos de quem não estava abrindo espaço para discussão: a educação é tudo. E nós aprendemos isso não pelo que ela falava, mas pelo que ela vivia. 

 

A criação dela era rígida. Notas excelentes eram exigência, não elogio. Todos nós tínhamos professores de reforço fora do horário escolar porque ela não admitia que faltasse acompanhamento. Mas eu nunca senti isso como peso. Eu sentia como cuidado. Como a forma que ela encontrou de dizer, sem usar essas palavras: “vocês merecem o melhor que existe, e eu farei o que for preciso para que vocês cheguem lá”.

 

Quando chegou a hora de sair para estudar fora, a distância se abriu entre nós como uma ferida necessária.

 

Tocantinópolis fica a mais de mil quilômetros de Goiânia. Eram dois dias de viagem no ônibus da empresa Expresso Braga, o conhecido “pinga-pinga”. E toda vez que eu partia, havia uma imagem que se gravava em mim com uma força que o tempo jamais apagou: o momento da despedida. Ficava parada, acenando, até que eu sumisse completamente das suas vistas, o ônibus virasse uma mancha distante e depois, nada. Eu não conseguia ver o momento em que ela parava de acenar. Talvez ela não parasse. 

 

A alegria da chegada e a tristeza da partida. São as duas memórias mais vivas que tenho desse tempo. A chegada era festa. Ela guardava o melhor para quando a gente voltava nas férias: o melhor prato, o melhor doce, o melhor que a casa tinha para oferecer. Era como se a casa inteira tivesse ficado em suspense, esperando. E quando a gente chegava, ela transbordava.

 

Ela gostava da casa muito arrumada, decorada. Crochês, tricôs, guardanapos, toalhas de mesa... tudo feito pelas suas próprias mãos. Era artesã de mão cheia, e cada peça que ela criava era uma forma de habitar o espaço com beleza. De dizer que ali era um lar, não apenas uma casa. Dizia que tinha aprendido a envelhecer, e isso era sabedoria em sua mais pura forma. Envelheceu lendo, frequentando a igreja, cozinhando, fazendo crochê. Envelheceu criando. 

 

Criou também o projeto social “Associação de Criatividade Artesanal de Tocantinópolis”, existente até hoje com a finalidade de profissionalizar meninas em situação de vulnerabilidade social.

 

Lembro-me ainda, quando criança, de um programa na rádio de São Luís, no Maranhão. Com alcance em Tocantinópolis, tinha como título Alegria na Taba. Taba, no sentido de casa, de tenda, de lugar onde se pertence. Era um programa das tardes onde as pessoas dedicavam músicas umas às outras, iniciando, geralmente, com “Os Verdes Campos de Minha Terra” na voz do eterno Agnaldo Timóteo. O irmão de Teresina, tio Zé Lino, a tia Chiquinha lá de Jatobá, no município de Colinas, Maranhão, havia também a tia Toinha, que morava em um distrito de Tocantinópolis chamado Mosquito, atual Palmeiras do Tocantins, o tio Chico Lino e parentes de outros lugares... todos trocavam músicas pela rádio. Era assim que o amor circulava naquele tempo: em ondas de rádio, em melodias que cruzavam o sertão.

 

Ela gostava de cantar e dedilhar o seu violão. Quando havia folga, acariciava as cordas e cantava músicas de Ângela Maria, de Dalva de Oliveira, clássicos que traziam consigo o perfume de um Brasil que ainda sabia sentar para ouvir. Eu me lembro da sua voz. Não me lembro com exatidão das notas, mas me lembro da sensação que ela produzia: de que tudo estava bem. De que aquele momento era suficiente.

 

Depois que aposentou, tornou-se do lar... e encontrou na aposentadoria não o vazio, mas a abundância. Os netos foram chegando. A cozinha foi ganhando novos públicos. Os bolos e os doces — os doces de murici e os de cajuí, o mangulão, os bolos cacetes — saíam das suas mãos como se fossem obra.

 

Há dois momentos que eu preciso nomear, porque eles dizem tudo sobre quem ela era para mim. 

 

O primeiro: quando colei grau em Ciências Econômicas. Ela estava lá. Participou de cada momento. E transbordou de felicidade de uma forma que eu nunca havia visto antes e nunca mais esqueci. Não era orgulho comum. Era algo mais profundo: era a confirmação de que o aceno no ponto de ônibus, os professores particulares, a exigência, as noites guardando o melhor para quando a gente chegasse... tudo aquilo havia valido. Ela sabia. E eu sabia que ela sabia. 

 

O segundo: minha posse como Conselheiro do Tribunal de Contas. Ela estava presente, ao lado do meu pai. E eu, no meu discurso, dediquei parte das minhas palavras a eles. Não havia como não fazê-lo. Porque nenhuma conquista minha existiria sem a obstinação silenciosa daquela mulher que decidiu, aos quinze anos, que a vida devia ser vivida inteiramente. 

 

O câncer chegou quando ela tinha quarenta e seis anos. Veio, foi embora, voltou em outro lugar, foi de novo, voltou ao lugar inicial. Ficou batendo nessa porta durante décadas, e ela ficou resistindo com a mesma tranquilidade com que acenava no ponto de ônibus: firme, sem dramatismo, sem deixar de ser ela mesma. Em 2012, quando estava para completar oitenta e um anos... tendo festejado os oitenta em Goiânia, em família, como merecia, a doença aprofundou e, dessa vez, a levou para a Casa do Pai. 

 

O momento mais triste da minha vida foi a partida dela. Mas encontro conforto nas memórias de tudo que vivemos juntos. Nas despedidas com aceno. No aroma dos bolos. Nas tardes de rádio com dedicatória. No crochê que ornamentava cada canto da casa. Nas longas férias na fazenda com a leitura dos cordéis. No violão que ela dedilhava quando havia paz suficiente no mundo. 

 

Se eu precisasse defini-la em uma única palavra, ela, que era tantas coisas ao mesmo tempo, eu diria: amor. 

 

Não o amor fácil, aquele que não custa nada. O amor que atravessa perda atrás de perda e ainda insiste em florescer. O amor que estuda junto com o filho quando poderia ficar em casa. O amor que fica acenando até sumir das vistas. O amor que guarda o melhor da despensa esperando a chegada dos que partiram. O amor que diz, sem usar essa palavra: “você é suficiente, e eu faço questão que você seja mais”. 

 

O amor que aprende a envelhecer. Que toca violão nas tardes. Que faz toalhas de mesa e decora a casa como se a beleza fosse uma necessidade tão básica quanto o pão. 

 

O amor que parte, mas que não vai embora. Porque esse tipo de amor não conhece ausência. Ele permanece. Em cada decisão que tomei. Em cada vez que exigi o melhor de mim mesmo. Em cada momento em que olhei para trás e percebi que não havia chegado até aqui sozinho. 

 

Neste Dia das Mães, que este texto seja também uma vela acesa para todas as mães que acenaram até sumir das vistas. Que guardaram o melhor para quando os filhos voltassem. Que estudaram ao lado dos filhos e fizeram do aprendizado um ato de amor. Que fizeram a beleza do mundo com as próprias mãos. Que cantaram nas tardes, mesmo quando havia motivos para o silêncio. Que perderam e ainda assim continuaram querendo. 

 

Toda mãe carrega em si uma forma única e irrepetível do eterno. E o eterno, este sim, não tem data de chegada nem de partida. 

 

Minha mãe me ensinou isso. 

 

À Dona Alcides, com todo o amor que aprendi com ela. E a todas as mães: obrigado por serem o lugar onde o mundo começa. 

 

José Wagner Praxedes

Conselheiro Decano do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins 

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