Na segunda-feira à noite, véspera de eleição da Mesa da Assembléia Legislativa, uma movimentação de carros de frente ao Mercatto, na loja que pertence à esposa do ex-senador Eduardo Siqueira Campos chamou a atenção. Sumido das redondezas desde a morte do seu filho no meio do mês, o secretário e um dos principais articuladores da campanha governista à presidência chegou apressado para um encontro que não era com nenhum dos parlamentares que conheço.
Um emissário do núcleo oposicionista liderado pelo PMDB levava uma última oferta de acordo para o governo: montar um chapão. O custo seria baixo: garantia de governabilidade em troca de afastar Moreira e Solange da postulação e criar uma terceira opção. Mas o acordo rifaria por conseqüência o PT de Donizete de seus cargos na Mesa. Eduardo recusou a oferta.
E Donizete não foi tão crédulo assim
A derrota imposta do pescoço para baixo à chapa do governo e por conseqüência aos dois petistas de primeiro mandato (Amália e Zé Roberto) tornou-se alvo da crítica impiedosa de petistas, ex-petistas e internautas de todas as matizes políticas. O argumento é que Donizete trocou a presidência garantida de Solange por nada, já que perdeu os cargos da Mesa. Não é bem assim.
Primeiro, não sejamos ingênuos. A composição do PT no grupo não seria pura e simplesmente uma troca de dois votos por dois cargos, por mais que a primeira secretaria disputada por Zé Roberto fosse importante. Manuel Queiroz foi duro ontem: “o PT se vendeu”.
Prefiro ir com calma: o PT negociou. Se cargos na Assembléia, presidência de comissões, atendimento a demandas dos movimentos sociais e outras coisas mais não se pode afirmar ao certo. Os dirigentes e prefeitos presentes às infinitas reuniões que trataram do assunto podem dizer mais sobre isso.
Mas é importante dizer que Donizete não foi tão crédulo assim na capacidade de Eduardo de apresentar, retirado da manga e no dia da votação, o prometido 13º voto que não veio. Sim por que não há um registro de fonte confiável que aponte para uma conversa ou negociação de Iderval com quem decidia as coisas no núcleo do governo. O mais perto que chegou foi de Luana Ribeiro, quando esta queria ser candidata e articulava uma base de apoio mais ampla.
Donizete teve um sinal de 13º voto vinda lá de dentro da base oposicionista. E aí conto um outro encontro, que ocorreu há dias. Este mais público ainda. Segundo soube, num shopping da capital. Nesta conversa, o petista teve a convicção de que o 13º voto estava em fase de construção. Na outra via, oposicionistas também tiveram um aceno de apoio dentro da base do governo. Mas isso é assunto para outro artigo.
Protegendo o aprendiz de traidor
Acontece que Donizete se nega a dizer o nome do deputado que lhe deu esta esperança. E Eduardo Siqueira perguntado ontem à noite sobre isso disse que quer enterrar a história: “sem nomes”.
Anteontem no almoço oferecido aos deputados na casa de Raul e Solange, o pastor Eli provocou: “vocês precisam escrever sobre o blefe do governo, que vive dizendo que tem um voto a mais, que tem dois e esses votos não aparecem”. Eu respondi que faria isso, depois dos votos apurados. E Iderval emendou: “até você tá duvidando da gente?” Não era bem dúvida das pessoas, mas já vimos esse filme tantas vezes antes que é preciso esperar o fato se concretizar primeiro.
Pois bem, o dia chegou e os dois votos: o 13º e o 14º não se somaram à base do governo. Meu palpite, do 12 a 12, conclusão a que vinha chegando desde domingo (quando percebi na tensão de Eduardo Siqueira que os acordos não evoluíam) só não se concretizou por que Iderval virou a cédula de cabeça para baixo. É de rir, para uns. E de chorar para outros, mas aconteceu.
PT foi o fiel da balança desde o começo
Voltando ao título e aos autores da confusão. Quem observa este processo eleitoral desde o começo já tinha percebido - como eu disse aqui lá atrás - que o PT se dividiu em dois naquele episódio em que Donizete não permitiu sequer a discussão da senatória de Solange naquela reunião pré acordo com o PMDB, lá no Hotel Arco Íris.
Estava nítido que haveria uma divisão: de um lado ia ficar o núcleo do PT que segue toda a forma de fazer política regida com maestria por Donizete = dois deputados; de outro estaria Solange e próximo a ela, por toda ligação com Raul, Wanderlei Barbosa (PSB). Este aliás, honrou o acordo de ser homem de grupo até o fim (embora devesse os votos de Campelo e Cavalcante em 2008 à Eduardo Siqueira).
Quando ofereceu a presidência à Solange, o grupo que a esta altura já era coordenado mais por Sandoval do que por Júnior Coimbra, terminou de isolar do outro lado os votos do PT. Embora para se fazer justiça, é preciso dizer que o PT de Donizete já vinha discutindo interna corporis a aliança com o governo há dias.
Cá comigo tenho a impressão que Donizete – por tudo que significa no partido e pelo que construiu ao longo dos anos – primeiro se convence do que é melhor e depois convence os outros dentro do PT. Não havia hipótese na minha opinião, de que ele fortalecesse Solange e Raul. Nem no melhor dos sonhos.
E no final, quem ganhou?
A pergunta acima é a que mais ouvi ontem, desde que a eleição terminou: quem ganhou? Quem perdeu?
Bem, o governo elegeu nove, fechou o ano com dez e chegou a 12, com a ajuda inegável do PT de Donizete. Ganhou a presidência. Mas, notem bem, a oposição também ganhou. Elegeu seis cargos da Mesa Diretora, o que vai forçar o governo a conversar, ceder, se articular. Traduzindo: vai dar muito mais trabalho.
Só que isso faz parte do jogo democrático. É assim nos estados brasileiros em que a política é mais complexa. Por tudo isto é que avalio que ganhou a sociedade tocantinense com o resultado da guerra travada nesta terça na Assembléia Legislativa. Está posto um equilíbrio, que tem que ser vigiado para que não seja utilizado como moeda de troca por quem tem a maioria dos votos.
Fora isso, faço coro com Solange e Zé Roberto: quem perdeu foi o PT! Perdeu ao se dividir e ao deixar para depois, sempre ,a solução dessa pendenga interna. Com a de ontem, Donizete e seu grupo cresceram em respeito dentro do governo e possivelmente terão retorno disto. Mas o PT do Tocantins deu a Solange todas as razões legais para que ela diga adeus ao partido e vá cuidar da vida.
Ou alguém aí tem dúvida de que a deputada ao final restou discriminada pelo seu próprio partido? Este é um dos motivos inequívocos que a lei considera válidos para dar licença a quem quer que seja para sair pela porta da frente. E sem olhar para trás. Só resta saber para onde.
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