A perigosa mistura de religião com política para fins eleitorais

O estado é laico, e na vinda do papa Bento XVI ao Brasil o presidente Lula mostrou que entende bem isto: não dá para misturar religião com política. Por aqui, infelizmente, nem bem a campanha começou e lá vem uns e outros oportunistas misturando o no...

Nem bem a campanha começou e o nome de Deus já se tornou argumento para pedir votos ou negar apoios como se sua simples menção fosse explicação suficiente para tudo. Na campanha dos proporcionais que foi ao ar ontem no rádio, as coisas mais absurdas puderam ser ouvidas. Por exemplo, um candidato homofóbico usando o nome de Deus e afirmando que quer ser deputado federal para impedir a aprovação da união entre pessoas do mesmo sexo. Vai ter que se esforçar mais para justificar quatro anos de um mandato cheio de regalias.

A pregação da ignorância, do preconceito, da discriminação, em nome de convicções religiosas de caráter duvidoso, é apenas uma face da moeda. O que dizer de mal intencionados dos dois lados, que usam da boa fé de grupos religiosos para disseminar informações falsas e distorcidas além de pintar um ou outro candidato ao governo com cores demoníacas?

A cor da camisa e a pomba como argumento

Na série de absurdos publicados tem de tudo contra Gaguim e contra Siqueira. Seja por causa da camisa vermelha de um, ou da pomba do divino que o outro usa, tudo serve de argumento. Desde que seja possível “grudar” nos candidatos imagens avessas à fé de públicos específicos, religiosos. Li sem acreditar no que via nos últimos dias, manchetes de jornais voltados para evangélicos que chegam às raias do absurdo na tentativa de manipular o entendimento destas pessoas.

Mas o preconceito religioso é rasteiro, coisa de gente sem escrúpulos. Não tenho outra forma de entender a tentativa de exploração de conceitos e dogmas de fé para estimular a ignorância.

A estrutura de algumas organizações religiosas coloca o líder máximo como a figura hierarquicamente responsável por “guiar o rebanho”, com uma grande capacidade de influenciar em suas escolhas. É o caso de boa parte das igrejas evangélicas, que acabam indicando e elegendo candidatos, e em última instância - como agora, no argumento usado com o Pastor Pedro Lima - lhes recomendam a infidelidade partidária para atender aos “interesses da Igreja”. Nada contra ninguém. É apenas incompreensível esta lógica, e sua ética.

Ter que ir para a igreja para ganhar bicicletinha também é exemplo da mistura do estado com a igreja, do laico com o religioso, fora dizer que não tem qualquer amparo legal uma exigência destas. É compreensível pregar a fé como um dos pilares da família. É admissível, e até recomendável, que um agente público incentive o desenvolvimento de valores religiosos. Obrigar não. É contra a lei.

Liberdade de credo e de escolhas

A Constituição Federal de 88 deu ao cidadão brasileiro e por extensão ao tocantinense uma série de garantias. Uma delas é a de professar a fé que melhor lhe convier. Sem imposição, sem obrigação. Ou não professar fé nenhuma. As organizações religiosas têm toda a liberdade para pregar aquilo que acreditam - mesmo que muitas vezes incomodem os outros com seus decibéis de som nas alturas, invadindo a privacidade de cidadãos que só têm o domingo para descansar – mas não podem invadir o campo do direito individual.

Somos todos livres para professar fé, e escolher candidatos. Vivemos uma sociedade plural, formada por culturas diversas, gente de todas as partes do mundo. O que acontece é que a sociedade precisa ficar mais atenta para a troca de posições, inversão de valores e tentativa de manipulação religiosa para fins político eleitorais. Façam lá seus acordos, seus contratos de prestação de serviço, suas mudanças de grupo. Mas deixem Deus e seu santo nome fora disto.

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