A tal manutenção preventiva: um "negoção" de fazer corar quem tem vergonha

Neste começo de revelações comum sempre que troca o governo, dívida vai, dívida vem e de repente a gente "topa" com um "negoção', na linguagem popular. Daqueles de fazer corar quem tem vergonha. É o caso dos pagamentos de milhões ...

Desde o final do ano passado a situação de alguns comerciantes na capital, que prestaram serviço para o Estado me chama atenção. É o caso do Kito, conhecido em Porto e em Palmas, dono de uma empresa de funilaria e pintura, expert em recuperar pequenos arranhões e lataria batida. Ele como muitos, engrossa a fila dos que trabalharam para alguma secretaria, por conta de alguém conhecido que fez o contato e garantiu que o pagamento não iria demorar a sair.

Normalmente a coisa começa pequena, os serviços vão se amontoando e de repente a dívida vai ficando grande demais para quem tem capital de giro pequeno. Foi isso que vi acontecer com o amigo de longas datas. Depois de receber uma dica, consultar umas fontes no governo e acionar um amigo, conseguimos consolidar as informações sobre dívidas e pagamentos do Estado feito à empresas no ramo de serviços automotivos sabe-se lá por que.

Não sei, nem questiono a legalidade das transações. Se teve licitação, quando teve, qual o preço. Não se trata disto. O que está claro como a mais radiante luz do dia é que para uns tudo, para outros nada.Ou melhor: para uns o sol, para outros a sombra.

Para o Kito, que abre a gaveta sem constrangimento para mostrar as cartelas de remédio controlado e passou perto de colocar fogo na própria oficina atormentado por perder o crédito, o sono e se atolar em dívidas, também pouco importa se os outros empresários foram beneficiados pelos laços de amizade ou de compadrio político. O que não dá para entender é a irresponsabilidade do Estado, através de seus agentes públicos, em quebrar gente pequena que “rala” muito e sua a camisa para sobreviver. Faltam palavras para expressar o tamanho da indignação.

As revisões que valem milhões

O que chama a atenção nos contratos pelos quais nós pagamos nos últimos anos mais de R$ 4 milhões a uma empresa da capital e mais de R$ 3 milhões apenas no ano passado a uma empresa mineira, é que foram feitos para “manutenção preventiva”.

Sabem o que é isso? Aquela revisão que a gente faz no carro quando vai viajar, para checar itens básicos: cabo de acelerador, velas, estado dos pneus, elétrica, uma correia do motor. Coisas simples sabem? Pre-ven-ti-vas.

Nada que se compare a caminhoneta da SSP batida e com a mecânica toda lascada que o Kito consertou por R$ 7 mil, cuja despesa não foi sequer empenhada. Manutenção preventiva no Tocantins nos últimos dois anos virou um "negoção", como diz o matuto. Um baita negócio da China, no ditado popular.

Não sei se é comum em algum lugar do país uma oficina receber R$ 3 milhões em um ano para dar revisão e eventualmente trocar peças numa frota oficial. Haja carro para revisar.

Sem varrer o lixo para debaixo do tapete

Tenho visto muita gente por aqui defendendo em comentários que governo que entra não tem que apontar os problemas deixados pelo governo que sai, tem que "tocar pra frente". Não acredito na política do avestruz, nem acho certo varrer o lixo para debaixo do tapete.

O que está em jogo aqui é a credibilidade do Estado em contratar, independente de quem é o governante. Contratar e pagar, como cobram de nós  cidadãos, empresários e contribuintes que a gente pague em dia o IPVA, o IPTU, as multas de carros, o ISSQN ou o ICMS.

Nem todo mundo conseguiu achar um filão para faturar milhões em um ano, fazendo revisão de carros. Preventiva. É de esgotar realmente a paciência um caso como este. Seja lá qual for o sobrenome envolvido em tão bons negócios, taí o tipo de coisa que não dá para ficar na gaveta.

Depois de tanta coisa que o governo fez parar até ajeitar a casa, deixo a minha sugestão: parem esses carros precisando de manutenção preventiva. Parem os carros quebrados. Rodem só com os que estiverem em bom estado. E guardem o dinheiro para pagar gente como o Kito, o Rosendo e tantos outros “sem esquema” e “sem padrinho”. Gente que não vendeu empenho por 30% a 40% para receber a dívida.

É o mínimo de respeito que eles merecem, por manterem suas portas abertas empregando gente simples, que o Estado não tem mais como comportar na sua folha de pagamento.

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