Com perdão da redundância: As coisas difíceis não são fáceis, mas necessárias

Tenho saído da redação pesarosa nos últimos dias. De um lado por que tudo que é frágil se desmancha no ar, inclusive os laços que a gente julgava mais fortes que as reviravoltas da política. De outro por que este portal de notícias tem publicado muit...

Quando comecei a fazer jornalismo, lá atrás na década de 80 no extinto ICHL da UFG, o pai de uma amiga me perguntou por que eu queria uma profissão destas e não medicina, por exemplo. Diante da minha dificuldade em entender a dúvida dele no que me parecia tão óbvio: fazer a diferença, mudar o mundo e toda a ingenuidade típica dos primeiros anos da juventude, ele explicou do alto da sabedoria dos mais de 60 anos vividos à época: “Médico quando desempenha bem sua profissão ganha presente. Jornalista, quanto melhor for, mais chance de ganhar processo e de vez em quando bala” .

Os anos se passaram e fui percebendo que o que eu julgava exagero e conservadorismo na fala daquele homem tinha seu “quê” de verdade. Nas últimas duas décadas no Tocantins possivelmente ainda não tinha conquistado a oportunidade de fazer jornalismo tão real e verdadeiro quanto aqui, neste Site de Notícias nos últimos meses. A característica da internet permite custos menores e em conseqüência uma dependência menor do poder público, e acabei eliminando a figura do patrão.

Fugindo da pauta óbvia, começam os temas difíceis

O problema é que estamos fugindo da pauta óbvia e mergulhando nos bastidores de notícias que incomodam, não só da área de política, foco principal da nossa cobertura. E a primeira conseqüência disto é que o clima pesou literalmente na redação, onde tenho uma equipe jovem e dedicada que passou a assistir de perto todo tipo de pressão.

Mais visibilidade, conquistada nos últimos meses também no crescimento dos acessos, tem implicado em maior responsabilidade. A caixa de ressonância aumentou e muito. Talvez por isto denúncias em todas as áreas venham chegando com freqüência, e com elas normalmente a cobrança por parte das fontes de que as matérias sejam apuradas e publicadas o mais rápido possível.

Assim desfilaram sob os olhos dos nossos assíduos internautas nos últimos dias notícias ruins de serem lidas. Denúncia nacional envolvendo nome de governador e procurador de Estado. Jogo de interesses e mentiras públicas no caso da aprovação da LDO que vai engessar o primeiro ano do novo governo. Cenário de incerteza no encerramento do governo atual que enfrenta muita dificuldade para cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Penalização dos servidores que tiveram férias canceladas e não estão conseguindo receber seus acertos ao deixar suas funções no governo do Estado.

No combate ao crime, o lado podre precisa ser enfrentado

E aí tem também as piores, da área de polícia: ações de repressão que exorbitam no uso da força – e que até têm seu outro lado para amenizar- mas que não é dito pelas fontes oficiais; gente de destaque e bom relacionamento na sociedade com prisão em flagrante por abusar sexualmente de menor; rede de magnatas envolvidos em pedofilia, e por fim até autoridade que precisa estar acima de qualquer suspeita por ser a imagem da justiça, com envolvimento em caso no mínimo deprimente.

Tudo isso, queira a gente ou não, vira notícia. Trata-se de notícia ruim, mas absolutamente necessária. Não por que renda audiência, mas por que faz parte daquele compromisso profissional feito lá atrás, na faculdade ou fora dela, o estar atento e comprometido com os assuntos de interesse da sociedade. Alguns temas nos causam profundo desgosto e abatimento ao serem enfrentados, mas repito: não há como fugir deles sem ser conivente com a mentira, com o crime, com tudo que mata a esperança e a perspectiva de futuro.

Depois de um dia de Finados que é sempre uma boa oportunidade para refletir sobre o verdadeiro sentido da vida, a gente volta ao batente com muita vontade de dar boas notícias para o Tocantins. Mas sem saber quando isso será possível. Os tempos são estranhos e para nós especialmente difíceis. Tempos de resistir a toda sorte de dificuldades. Tempos de reafirmar o compromisso de ser equilibrado, mas com a consciência de que não dá para ser imparcial.

Parciais em defesa da vida, da liberdade, da justiça

Seremos parciais na defesa dos direitos humanos, e especialmente os da criança e do adolescente. Seremos parciais em defesa da transparência nas ações que envolvam a aplicação dos recursos públicos. E parciais na luta pela liberdade da imprensa de divulgar o que assusta e incomoda poderosos. Parciais contra toda espécie de censura. Parciais contra a corrupção, em todos os seus níveis. Parciais na defesa da construção do mundo que a gente acredita. Mesmo que nossas crenças não sejam unânimes.

É que há uma coisa mágica em ser jornalista, ao invés de ser médico, advogado, ou qualquer outra profissão tão ou mais importante e melhor remunerada. Aquilo que não se pode perder jamais, mesmo duas décadas depois de ter pisado pela primeira vez numa sala de aula na universidade: a consciência de que a imprensa não muda o mundo. Mas ajuda a refletir para a sociedade, a iniciativa daqueles que - mesmo remando contra a maré – fazem isso todos os dias, cumprindo bem o seu papel: de pai, de mãe, de professor, de médico, de policial, de promotor, de juiz, de cidadão.

A gente resiste, por que ainda acredita. Mesmo que num ou outro dia, o peso das más notícias terminem colocando em dúvida nossa fé no ser humano, é preciso acreditar e fazer nossa parte.

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