Do tinteiro ao teclado, profissionais!

Nesta sexta-feira, 5, é comemorado o Dia do Escrivão de Polícia e para conhecer um pouco mais sobre o o dia-a-dia desse profissionais confira o artigo de Gilvan Nolêto. "Atentos a todas as mazelas que chegam em uma delegacia, o Escrivão é aquele...

Com a ponta dos dedos eles registram ocorrências, formalizam depoimentos, interrogatórios, e a tudo devem segredar, em respeito à ética. Entre os principais companheiros de trabalho, a audição e o tato. Os profissionais contemporâneos já não usam penas, nem tinteiros. A modernidade os apresentou aos teclados que o patrono Ruy Barbosa não chegou a conhecer. Ele também não soube que, na data de seu natalício, 05 de novembro, em sua homenagem, o Dia do Escrivão de Polícia é comemorado.

O mister do Escrivão tem origem na história dos antigos Escribas e Doutores das Leis, como pregam alguns autores. E pela semelhança das funções, guardadas as devidas proporções os escribas da polícia não poderiam escolher melhor data para comemorar o seu dia. Como se sabe, Ruy Barbosa não foi apenas poeta. Orador de eloquência rara e imortalizado em nossa história como o Senhor das Letras, o grande Águia de Haia também foi um grande jurista.

Atento a todas as mazelas que chegam em uma delegacia, o Escrivão é aquele profissional que jamais pode se dar ao luxo de se portar como se dissesse: E eu com isso? Os demais, também não podem. A ênfase ao escrivão é para explicar, que sem dar a atenção que um queixoso ou denunciante merece, a justiça certamente não será feita.

O Escrivão tem que ser paciente, ter ouvidos e mãos limpas; receber os queixumes com senso de humanidade; ser solidário sem envolver-se com o problema; compreender como se psicólogo fosse; orientar como um pai a um filho sobre os próximos passos seguros a seguir; registrar toda a prolixidade numa síntese, de forma que suas mãos nem a consciência venham toldar por uma vírgula a mais ou a menos, sobre os fatos narrados.

Não é dele a competência administrativa de uma delegacia. Em tese. Na prática, ah, essa é outra história! Escrivão é a alavanca de uma delegacia ou como preferem alguns delegados, “assessor direto da autoridade policial”.

Sob a responsabilidade desse escriba estão, a confecção das peças inerentes aos inquéritos, o agendamento das oitivas, a guarda de objetos relacionados a todos os procedimentos instaurados, a organização cronológica documental, e ainda precisa estar atentos ao cumprimento de todos os prazos legalmente estabelecidos em Lei. Não, não está escrito errado. A palavra é escrivão mesmo e não, escravão.

Embora a aparente coadjuvância seja própria da discrição do cargo, o escrivão é protagonista. Uma delegacia pode funcionar até mesmo sem o investigador, mas jamais sem o escrivão. Ele não ostenta pompa; não ganha tão bem assim. Mas por ser o único a ter fé pública em uma delegacia, um documento assinado, somente pela autoridade policial, não terá a mesma validade que tem se acompanhado da assinatura do escrivão.

Se para eles a modernidade do teclado trouxe mais prazer profissional, tornando o trabalho mais célere, na esteira do progresso veio a dor da Lesão por Esforço Repetitivo (LER), só pra sacanear. Aliás, nesse aspecto, o escrivão é primo-irmão dos jornalistas. Muitos profissionais apresentam lesões por essa doença, por vezes nem reconhecida legalmente. Ao contrário, o lesionado é vítima de chacota, pois os insensatos denominam-na de LERdeza. E apesar de médicos especialistas diagnosticarem a doença e prescreverem atestado condizente com a gravidade do problema, por vezes há dificuldade para o deferimento legal sobre o período para o afastamento da lide.

Mas quem se dedica à profissão é consciente quanto ao ônus do cargo e por amor supera o pouco reconhecimento. A superação também faz parte da experiência acumulada junto com a dor nas mãos. Essas mãos que não brincaram de fazer, fizeram. E fazem, todos os dias.

Gilvan Noleto é Perito, Jornalista, e Pós-Graduado como Especialista em Polícia Comunitária

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