A chiadeira está grande desde ontem em diversos segmentos da sociedade organizada com a decisão do prefeito Raul Filho (PT) - que vai na contramão da prática comum nos últimos anos - em não destinar recursos públicos para a festa popular do Carnaval 2011.
Pode até ser que o prefeito reflua, como quer a Fecomércio, mas permitam-me discordar dos que atacam por achar que cabe ao poder público municipal bancar esta festa sob o argumento de que ela gera divisas à economia do município, aquece o comércio e pode atrair os turistas.
Tudo isto é verdade: um circuito de carnaval bem feito, organizado, planejado e divulgado traz seus lucros a toda rede envolvida em sua execução. A questão não é esta, mas outra: até quando e por que motivo cabe ao poder público bancar com recursos públicos o Carnaval?
Até quando o dinheiro público terá que bancar o Carnaval?
Penso diferente. Tratado como uma manifestação cultural, o Carnaval do Tocantins conquistou sua identidade mais no interior do que na Capital. Em Gurupi, os blocos fazem a festa e já se tornaram tradição. No Sudeste, em Arraias e Dianópolis, ganhou força e característica próprias. Nas maiores cidades do Estado, ou nas menores do interior, se resume a uma ou mais bandas bancadas por prefeituras, muitas vezes paupérrimas. E acaba que a festa serve mais para aumentar o faturamento das cervejarias e ao aumento dos índices de violência do que para qualquer outra coisa (como aquecimento do comércio local, por exemplo).
Em Palmas já tivemos carnaval de escola de sambas (que não se firmou), carnaval de bloco oficial, carnaval em Taquaralto e circuito da folia na Theotônio, carnaval fora de época e outros carnavais. A verdade é que ao longo de todos estes anos não se consolidou um modelo de carnaval que ficasse, se perpetuasse e fosse integrado à tradição popular de uma capital que já tem mais de 20 anos.
O fato é que a cidade já cresceu e atingiu a maioridade, mas ainda se espera que o poder público gaste dinheiro com esta festa em tempos de corte em orçamento e adequação de custos que começa lá no governo federal e vem descendo para a realidade de estados e municípios.
Sim, o carnaval é uma festa popular. Sim, independente de ser do Sul, do Nordeste ou do Rio, palmenses de todas as origens também querem brincar o carnaval. Mas falando sério? Está na hora da iniciativa privada tomar conta desta festa. Já que é a iniciativa privada quem fatura com a festa.
O dinheiro público escasso para fazer frente a todas as políticas públicas de que a cidade precisa tem que ter outro fim, outra destinação. Não dá para montar palco, tendas, camarotes, e ainda patrocinar blocos que enriquecem seus sócios, sob o pretexto de que é obrigação do poder público cuidar da festa popular.
Na verdade o que a gestão municipal está quebrando é uma tradição, um hábito. E sinceramente, por mais impopular que possa ser a medida, Raul desta vez, pode estar com a razão.
As obrigações do município são bem outras
O que a sociedade espera da prefeitura e tem direito de cobrar o prefeito por isto, é que sua gestão reaja e tome conta da cidade. Que mantenha as vias públicas em condições de tráfego, os parques e jardins urbanizados e limpos, que melhore o atendimento à saúde básica. Que destrave as obras paradas e asfalte as quadras sofrendo há anos com valas abertas por onde escorre o dinheiro público e a paciência do cidadão.
Prefiro ver o dinheiro que seria destinado ao Carnaval, efetivamente aplicado em obras e ações que são estritamente da competência do poder público. E que a iniciativa privada chegue à maturidade junto com os 22 anos de Palmas. Quem quer faturar com a festa precisa investir nela. Já está na hora. Afinal, nós da antiga somos testemunhas do quanto a máquina do carnaval, bancada com recursos públicos enriqueceu muita gente por aí nos últimos anos.
O resto é pegar carona no discurso paternalista. Pode ser que a cidade de Palmas ainda precise de algum suporte público para ter sua festa cada vez mais independente dos surrados cofres municipais. Mas não no modelo que vinha ocorrendo nos últimos anos.
Já estava na hora de romper com a incoerência de gastar os recursos do povo para promover uma festa que no final, aumenta a demanda por serviços públicos na outra ponta: atendimento nos hospitais, suporte de segurança e tudo que a festa desencadeia. Serviços que, estes sim, o poder público tem obrigação de oferecer com qualidade.
Da entrevista de Kátia Maia, uma coisa talvez seja o mais importante: vamos ouvir todos os segmentos da comunidade sobre o assunto. Eu de minha parte, quero minha cota de sacrifício investida em outras coisas.
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