No saldo das urnas, a força de João Ribeiro fortaleceu o palanque de Siqueira

Enquanto alguns insistem em tirar os méritos de quem venceu as eleições, e transferí-los para quem quase ganhou, é preciso entender alguns capítulos da história desta eleição. Por isso, nada mais justo do que falar do papel desempenhado pelo senador ...

Ultimamente ao analisar o quadro presente, sempre me volta à memória alguma cena antiga, do começo da campanha ou ainda da pré-campanha. Ao me defrontar com o excelente desempenho eleitoral do senador João Ribeiro (PR), consciente de que boa parte dos seus votos vieram de colégios eleitorais do PMDB, e foram pedidos por deputados da Força do Povo, me lembrei dos fatos que cercaram a primeira caravana Acelera Tocantins.

Naquele dia, lá no Sudeste, na estreia do programa do novo governador, a ordem era que ninguém além dele e do prefeito falariam. A notícia desagradou, é evidente, a todos.Logo adiante, numa cidade pequena, sem estrutura de acomodação para tanta gente, o senador João Ribeiro era dos mais incomodados com a situação política, e a evidente desorganização. Se não pudesse falar, ou pelo menos lembrar as emendas que havia conseguido para os municípios que seriam visitados, de que adiantaria?

Entre governistas, um estranho no ninho

Depois de muitos entendimentos, ainda na sequencia da caravana o senador falou. Além dele, o senador Leomar Quintanilha e mais uns poucos. Mas o senador e líder do PR, companheiro do governador eleito pela via indireta, já era alí, um estranho no ninho. Ninguém duvida de que sem João, Gaguim não teria os votos necessários para ser governador.

Naquele processo de sucessão indireta, em que Siqueira Campos desautorizou o apoio de seus companheiros ao então presidente da Assembléia Legislativa, o senador foi o grande avalista do acordo que se formou. Especialmente partiu dele as articulações de apoio do governo federal ao novo governador.

Por tudo isto não era de se esperar que João, como candidato a governo fosse fritado nos bastidores da forma como foi pelo grupo governista. Da primeira caravana em diante, o discurso do governador para a mídia de que seu candidato era o senador começou a soar vazio. Setores do PMDB resistiam, e numa pesquisa que mandou fazer, o governador atual se amparava para dizer que João não poderia enfrentar Siqueira nas urnas, porque afinal o eleitorado dos dois era o mesmo. Realmente era. As urnas provaram isto.

Reaproximação respeitou liderança conquistada

Porém, mais que o senador natural do grupo de Siqueira, João Ribeiro já era o senador da maioria dos prefeitos, boa parte deles do PMDB, e de partidos ligados ao governo. Companheiro dos prefeitos, reconhecido por eles como um líder de primeira, do tipo que trata a todos com deferência e responde com lealdade os compromissos assumidos, João viu nascer deles o movimento pela sua reaproximação com Siqueira. O distanciamento tinha ocorrido por declarações do ex-governador, agora eleito, dadas à imprensa, sem que uma briga ou desentendimento tivesse ocorrido.

Aberto o canal do diálogo pelo grupo de prefeitos que acompanharam João no apoio ao governo, mas que nunca haviam deixado de alimentar o desejo de ver Siqueira de volta ao poder, as cenas foram se sucendendo. Isolado no grupo governista Ribeiro retirou sua candidatura ao governo e acenou que poderia ficar com seu grupo de origem. Na sequência foi chamado na casa de Sandoval Cardoso no memorável jantar em que o PMDB lhe ofereceu o que ele já tinha: a prerrogativa de ser o candidato a senador.

Da conversa com Siqueira e Eduardo, João saiu com as garantias de que escolheria sem interferência seus suplentes, e de que opinaria nas questões cruciais da campanha, independente de quem fosse coordená-la na logística ou na articulação política. A liberdade de apoiar Dilma, candidata do presidente Lula, também foi questão acertada num acordo de cavalheiros. Com todos os pré-requisitos aceitos, o senador entrou de corpo e alma na campanha de Siqueira, somando a ela uma rede de lideranças que o acompanharam em todo o Estado. Mas ainda assim havia o apoio dividido de prefeitos que ficaram com João e Gaguim, por puro pragmatismo.

A conquista dos deputados

Historicamente, a majoritária ajuda as candidaturas proporcionais. Mas na Força do Povo aconteceu uma situação sui generis. De um lado Paulo Mourão esperou apoio automático, e não apoiou materialmente os candidatos a deputado. E por materialmente entenda-se desde material gráfico, a outros tipos de materiais.

De outro lado, constantemente instado a defender o registro de sua candidatura frente a qualquer insegurança jurídica, Marcelo Miranda também não investiu. O governador peemedebista por sua vez segurou os recursos. É tanto que a campanha viveu um agosto difícil. No caso do senador Marcelo Miranda, maior puxador de votos do PMDB, seu material específico só ganhou as ruas na segunda quinzena de setembro.

A desarticulação de uns, acabou beneficiando outros. O fato é que João Ribeiro é uma rocha quando se trata de fazer compromissos e cumprí-los. "Ele não entra em campanha para perder. Ele é o tipo do político que exerce a política com profissionalismo, e não brinca de disputar eleição", me disse um federal eleito ao comentar a boa votação do senador na semana que passou.

Liderança consolidada

Não faltou material para quem quis apoiar Ribeiro. Só para exemplificar, os vereadores da bancada de Raul que fecharam apoio para o senador receberam impressos e adesivos sem o nome do governador Siqueira, para identificar seus carros e de suas lideranças. Mas ao respeitar de um lado o voto descasado, João Ribeiro nunca deixou brecha para que alguém insinuasse que seu candidato fosse outro que não Siqueira.

E o casamento natural entre os votos de João, e os do governador eleito aconteceu. A diferença dos votos que o senador recebeu mostram a espécie de "unanimidade" que ele se tornou entre líderes, prefeitos, veradores, deputados. Em português claro, João Ribeiro fez bancada mesmo sem eleger um deputado federal do PR.

Fiel à chapa majoritária que integrou, e ao palanque em que não se ouviu voz de discordância, Ribeiro influenciou também nos votos de Vicentinho, que subiram vertiginosamente na reta final, ficando a uma distância de 1% do ex-governador Marcelo.

A verdade que o tempo e as urnas demonstraram é que quem ficou com João, ficou também com Siqueira, exceção feita aos peemedebistas de carteirinha, e aos petistas que têm no PSDB seu principal adversário.

Dono de legenda própria e de um caminho que aponta para a convergência entre dois grupos, é inegável o quanto João Ribeiro saiu fortalecido das urnas de 2010 para construir um projeto político de futuro. Foi grande a guinada entre aquele João que caminhava com Gaguim na primeira caravana, e o senador que fechou a apuração das urnas deste ano quase como unanimidade. Sem dúvidas, uma eleição e uma votação que entram para a história e fazem brilhar de forma incontestável a sua estrela.

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