Gérson de Oliveira Nunes, jogador famoso na década de 1970 provavelmente nunca andou por aqui. Quando cunhou a célebre frase num comercial de cigarros: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?" estava captando um pouco do que – dizem por aí – é parte do jeitinho brasileiro. O fato é que o autor da famosa “Lei de Gérson” conseguiu traduzir em rápidas palavras uma mania que não é do Tocantinense e nem pode ser injustamente atribuída a todos os brasileiros, mas que traduz grande parte do espírito de parte do funcionalismo público: levar vantagem, levar vantagem, levar vantagem.
É claro que tem muita gente honesta no mundo e no serviço público também. Mas a tal da tentativa de levar vantagem, essa é conhecida em quase todas as repartições. Algumas descambam para o crime, por menor que seja. Em anos no serviço público no Tocantins já assisti casos que foram parar em abertura de processo administrativo e até dispensa.
É o motorista que tira gasolina para abastecer o próprio carro, ou vender por fora. É gente que carrega de grampeador a clipes, folhas e o que mais achar que lhe é útil da secretaria onde trabalha. É gente que viaja na quinta e volta pra casa na sexta, mas fica ganhando diária até segunda, por que precisa do extra “pra ajudar na faculdade”, e o secretário faz vistas grossas, junto com diretor e coordenador. E por aí vai. Tem gente até que bate carro oficial estando de férias. Coisas da lei do camarada lá em cima, o tal do Gérson.
Milhões divididos entre os que realmente viajaram e os parentes do Gérson
Entro hoje neste assunto não para dar lição de moral a quem encheu os bolsos, as contas bancárias e as “burras” de dinheiro público, destinado a diárias de trabalho. Mas é que está evidente o exagero, o despropósito, o absurdo do governo do Tocantins ter pago mais de R$ 25 milhões em diárias ano passado.
Algumas comparações básicas dão a noção do descalabro. O Legislativo brasileiro, sabe qual? Aquele malhado por oito entre cada dez cidadãos de qualquer parte do país, gastou durante todo o ano a quantia de R$ 7.064.682,19 , dados do Siafi.
Vamos mais? O Ministério das Relações Exteriores, aquele pessoal que viaja como só em atendimento aos interesses do país, consumiu dos cofres públicos R$ 23.869.441, menos que o governo do Tocantins sob a gestão do econômico Carlos Gaguim. Ele que nunca gastou (está nas últimas pérolas), mais que R$ 120,00 (cento e vinte reais) com diária de hotel e se gabava de ser módico neste tipo de despesa.
Bom, se for verdade, enquanto o governador do estado vivia dessa magra quantia quando saia do Estado, ponto para a Defensoria Pública, que pagava R$ 400,00 dia para sua Defensora Geral nas mesmas condições. Pessoa boa aliás, e que fez um bom trabalho à frente do órgão, diárias às parte. Mas trabalho prestado à parte, será que estes padrões estão de acordo à realidade do nosso combalido Tocantins? Dá o que pensar.
Passeando nos números do Portal da Transparência, do governo federal dá pra achar mais. Querem ver? Ministério dos Transportes, aquele povo que toca obra Brasil a fora: R$ 23.282.145,00. Ministério do Trabalho e Emprego = R$ 21.821.529.
Será o Salão do Livro, o vilão das diárias da Educação?
E a Seduc hein? Gastar mais de R$ 3 milhões com diárias. É coisa de trazer todos os professores do interior do Tocantins para o Salão do Livro por conta e deixar a turma instalada no Rio do Sono por uma semana. E olha que sobra dinheiro. A pasta conseguiu gastar o equivalente ao que desembolsou todo o Ministério das Cidades, na casa dos R$ 3.502.569.
Para ficar em poucos números os servidores públicos do Estado se movimentaram tanto, mas tanto, que trabalharam fora o equivalente aos técnicos do Ministério da Integração Nacional – que tocam projetos do PAC e obras hídricas em todo país. Eles consumiram R$ 25.150.484,00. Coisa de louco.
Sem trocadilhos e sem duvidar das pessoas sérias e de bem que deram duro nas secretarias e autarquias do Estado - muitos deles custeando viagens realmente a trabalho para receber depois, por conta da burocracia que imperava em alguns órgãos – é muita diária. De duas uma: ou tinha gente fazendo complementação de salário com proteção superior, é óbvio, ou tinha muita gente ruim de serviço cuidando de olhar as despesas públicas com este item.
De toda maneira, o jeito é fechar o ralo por onde escorreram estes milhões em 2010. Quero fechar a mesma conta em janeiro do ano que vem, de preferência mostrando que a farra acabou. E que este dinheiro tenha sido melhor aproveitado.
Afinal, um dia alguém mais que o típico malandro vai ter que levar vantagem nessa, como pregava o grande Gérson, não é mesmo? De preferência o cidadão comum que nunca viu uma ordem de pagamento de diária na vida.
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