O título da matéria publicada no Jornal Estadão até que reflete a realidade “Uso da internet ainda é desafio para partidos“, mas o desenvolvimento da matéria é uma visão míope, partidária e unilateral da questão. Embora as jornalistas Malu Delgado e Julia Duailibi tenham tentado fazer uma matéria sobre o impacto da Internet nas eleições 2010, elas comentaram, me desculpe a dureza das palavras, um erro básico no Jornalismo, ouviram somente um lado.
A matéria basicamente entrevista só os “caciques”, marqueteiros dos candidatos e uns poucos assessores, e coloca uma linha distorcida da pesquisa do Cetic para coroar a matéria e provar que o que os marqueteiros estavam falando é verdade.
É uma pena que as matérias dos jornais que falam sobre Marketing Digital, e agora sobre marketing político digital, sejam feitas de forma tão simplista. Com opiniões pré-formadas, e com tanta pressa e pouca investigação. Como uma matéria destas não entrevista nenhum, nenhum mesmo, especialista do setor? Não que tivessem que me entrevistar, eu adoraria já que estou dando palestra sobre marketing político digital em todo país com grande sucesso, mas poderiam também falar com a Martha Gabriel, ou algum outro especialista de renome na área. Mas não, é mais fácil entrevistar os marqueteiros do PSDB, PT e PV, e depois colocar um trecho escolhido a dedo da pesquisa do CETIC e uma pérola do Sérgio Amadeu.
Respeito as jornalistas que fizeram a matéria, mas deviam ter entrevistado também especialistas de fora dos partidos. Os “marqueteiros” de plantão a serviço dos candidatos dizem que a Internet não será decisiva ou que não há como saber quais os resultados, pelo menos motivo que as agências de publicidade minimizam o impacto real de Internet para seus clientes : A falta de conhecimento e de interesse comercial no assunto. Afinal, se uma agência ganha 40% do valor de veiculação de uma propaganda na TV ( entre taxa paga pelo cliente e o “tal do BV” pago pelo fornecedor ) porquê usariam a Internet que não paga BV e exige conhecimento, interação, equipe treinada e criatividade?
A matéria fala que são só, enfatizando a palavra que serve para dizer que é pouco, 24% dos domicílios brasileiros com Internet, mas a matéria não fala que a mesma pesquisa do CETIC mostra que mais de 50% da classe C, 79% da Classe B e 90% da Classe A estão na Internet, que 52% navegam todo dia, e que o brasileiro já passa 3 X mais tempo na Internet que na televisão.
Fiz um estudo que mostra que 18% dos votos serão decididos na Internet,e uma maratona que mostrou que os candidatos a presidência não estão de fato usando o Twitter, pois sequer respondem às perguntas do eleitorado.
Como digo em meus seminários “Nenhum candidato vai ganhar a eleição por causa da Internet, mas muitos vão perder porquê não usaram”.
Os assessores dos candidatos entrevistados tem uma visão estreita, e provavelmente, porquê não se prepararam para trabalhar na Internet, preferem acreditar que nada está acontecendo. Ignorar o eleitor que irá discutir, debater e decidir seu voto através da Internet, é a melhor saída para eles.
Leia abaixo a matéria original do Estadão, que perdeu uma excelente oportunidade de fazer uma matéria jornalistica sobre o tema, e tire suas conclusões.
Matéria original do Estadão
Uso da internet ainda é desafio para partidos
PT e PSDB apostam nos militantes virtuais e centralizam comunicação para guerra virtual, mas persistem dúvidas sobre eficácia das estratégias
23 de maio de 2010 | 0h 00
Malu Delgado e Julia Duailibi - O Estado de S.Paulo
O papel da internet na eleição presidencial no Brasil ainda não será decisivo, avaliam coordenadores de comunicação das pré-campanhas e especialistas. Mas é a batalha ideológica já aguerrida na rede que municiará e mobilizará militantes para o debate nas ruas.
Justamente pela internet ser vista como instrumento político valioso para preparar a militância é que as equipes dos pré-candidatos José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PV) começaram a montar seus núcleos de comunicação digital.
Nos bastidores, o PSDB já contabiliza um exército informal de pelo menos dez mil militantes. O PT, só em São Paulo, já tem quase mil “soldados” atuando diariamente na rede. O partido, com mais de um milhão de filiados, acredita no efeito virtual multiplicador da militância.
PT e PSDB terão ainda equipes especializadas pagas para atuar na campanha digital. Dirigentes das duas legendas temem um certo “descontrole” na linguagem e conteúdos de blogs e redes sociais dos candidatos. Por isso, passaram a centralizar a comunicação na internet.
No PSDB, o núcleo duro da internet é formado por dez pessoas. As iniciativas, antes pulverizadas, foram unificadas, na semana passada, sob a coordenação do jornalista Marcio Aith.
No PT, a comunicação é coordenada por Rui Falcão, vice-presidente da sigla. O partido decidiu separar a mobilização nas redes sociais, a cargo de Marcelo Branco, da comunicação institucional produzida para a internet.
Efeito Obama. No ano passado, tucanos e petistas flertaram com estrategistas da campanha do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na rede. Ben Self, da Blue State Digital, veio ao Brasil e foi cortejado por ambos os partidos como conselheiro. Acabou fechando com o marqueteiro do PT, João Santana.
“Vendeu-se aqui o mito da internet, e alguns brasileiros compraram. Achavam que a internet elegeu Obama, quando na verdade quem elegeu Obama foi o próprio Obama”, afirma Sérgio Caruso, integrante do núcleo tucano. “Ainda é uma incógnita quantos votos vão virar ou se posicionar por uma ou outra candidatura a partir do e-mail que recebem, ou do que estão lendo no Orkut”, diz Marcelo Branco.
“A internet não faz um candidato ganhar ou perder”, sentencia o secretário nacional de Comunicação do PV, Fabiano Carnevale. Porém, acrescenta, as manifestações criativas na rede podem seduzir eleitores e desafiar a lógica dos marqueteiros.
O PV, até o momento, aposta mais fichas na mobilização apartidária. O Movimento Marina, criado por não filiados, já tem 19 mil integrantes. Ainda assim, a sigla terá um núcleo digital composto por cerca de 40 pessoas.
“Todo mundo está superestimando o poder da web na conquista de votos. Os sites reforçam convicções que as pessoas já têm”, declara Marcelo Coutinho, professor da FGV-SP e autor de um estudo sobre o uso de novas mídias na campanha presidencial de 2006.
Para Tiago Dória, jornalista e pesquisador de mídia, o efeito Obama não vai se reproduzir no Brasil. “Não tem como comparar o poder da internet nos Estados Unidos com o Brasil.” Segundo ele, a internet, se bem usada, pode angariar simpatizantes não partidários. A tendência no Brasil, diz ele, é que a campanha seja menos propositiva e que os boatos sejam constantes.
Os partidos temem o efeito do bate-boca na rede. Os estrategistas do PSDB citam a forte campanha virtual em 2006 contra o então candidato Geraldo Alckmin. À época, circularam e-mails dizendo que o tucano faria privatizações se eleito. “Isso contaminou e pegou na veia”, diz Marcelo Vitorino, estrategista de marketing digital que poderá integrar a campanha de Serra.
“A estratégia de usar a internet para a campanha negativa, o que tem acontecido com o PT e o PSDB, é uma furada. É mais do mesmo. O grande barato da internet é atingir um grupo heterogêneo de pessoas”, pondera Carnevale. Para ele, o bombardeio de e-mails de militantes não é eficaz para definir o voto do eleitor.
Abrangência. O baixo grau de politização do brasileiro, aliado às limitações sócio-econômicas que reduzem a abrangência da internet, explica, segundo especialistas, a predominância da guerrilha virtual. Levantamento da comScore, empresa que mede audiência da internet em mais de 40 países, mostra que no Brasil só 2% dos internautas acessam páginas com o conteúdo político. Nos EUA, são 9,8%.
Dados do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br) mostram que só 24% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet - cerca de 13,5 milhões de casas no final de 2009. Esse porcentual é ainda menor no Nordeste e no Norte (13%).
Por outro lado, é nas classes populares que o acesso à internet mais cresce. “O Nordeste é o local onde há o maior porcentual de internautas integrando redes sociais”, afirma Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br. As informações apontam, por exemplo, que o acesso à internet em domicílios de famílias com renda de 1 a 2 salários mínimos cresce a uma média anual de 69%.
“As classes de renda mais baixa estão mais conectadas do que estavam na eleição de 2006″, diz Sérgio Amadeu, pesquisador de cibercultura e professor da Universidade Federal do ABC.
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