É lamentável que o atual momento político-eleitoral brasileiro viva em torno de temas morais-religiosos, como o aborto. Com tanta urgência em debate de assuntos relevantes para a nação, vimos, entretanto, um tremendo retrocesso.
Quero morrer defendendo o direito de liberdade religiosa e de expressão, mas abomino o que chamo de “ditadura religiosa”, que se impõe à frente de questões nacionais, como o que se sucede no atual momento da democracia brasileira.
Um outro caso emblemático é o da cruzada que a bancada evangélica e setores conservadores da Igreja Católica no Congresso Nacional empreendem contra projetos de leis a favor dos homossexuais, como é o caso da PLC 122/06, que criminaliza a homofobia (ódio aos homossexuais). Esse projeto de lei pretende transformar em crime de ódio a prática homofóbica, inclusive punindo os infratores. Somente com essa lei que conseguiremos fazer com que se respeite a condição homossexual no Brasil.
Hoje em dia ninguém mais, em sã consciência sai a torto e a direito injuriando e contando piadas de mau gosto sobre os negros, muito menos debochando na televisão, pois a lei anti-racismo é categórica: pune com cadeia o crime de racismo. O que não acontece com os gays. Diuturnamente são vítimas de chacotas, violentados, quando não muito, assassinados. O Brasil é campeão mundial desse tipo de crime. Em 2007, para se ter uma idéia, a Associação Grupo Ipê Amarelo Pela Livre Orientação Sexual – GIAMA realizou uma pesquisa na IV Parada do Orgulho LGBT de Palmas para medir o grau de homofobia enfrentado pelos homossexuais do Tocantins. 86% dos entrevistados declararam já terem sofrido algum tipo de violência, seja física ou verbal, apenas por sua orientação sexual. O dado é alarmante.
Não se quer que ninguém aprove ou ache bonita a homossexualidade. O que se quer é direitos iguais, nem mais nem menos, pois 71 direitos civis são negados aos homossexuais no Brasil. Isso é um absurdo num Estado democrático de direito. Inclusive, o Brasil está atrasado nessa questão em relação a paises como Argentina, Chile e Uruguai. Na Argentina, por exemplo, os hermanos aprovaram o casamento gay, com todos os direitos, garantias e prerrogativas do casamento hétero (entre homem e mulher).
E nós aqui ainda lutamos apenas pela “parceria civil”, um contrato mínimo de garantias para casos de sucessão. Ainda sobre o aborto, um dos países mais carolas da Europa, Portugal, recentemente aprovou a descriminalização do aborto. E no Brasil os religiosos, diga-se de passagem, não são todos, sequer cogitam apoiar o aborto legal, aquele garantido pela Constituição.
A mulher tem que ser dona do seu próprio corpo e o aborto tratado como questão de saúde pública, pois são as mulheres pobres as maiores vítimas. De acordo com dados do Sistema Único de Saúde (SUS), 183,6 mil atendimentos de mulheres que abortaram, sofreram complicações e precisaram passar por uma curetagem em 2009. Pesquisa recente publicada no jornal O GLOBO revela que uma mulher aborta a cada 33 segundos e a prática insegura mata uma brasileira a cada dois dias, sendo que um abortamento é feito para cada 3,5 nascidos vivos. Daí precisarmos de um debate sério sobre esse tema, sem as paixões religiosas interferindo.
O discurso é teoricamente moral e logo a Igreja Católica, cuja moralidade tem sido abalada por freqüentes escândalos de pedofilia envolvendo seus padres. Do lado cristão evangélico vimos a deteriorização moral com igrejas sendo abertas uma atrás da outra e onde pastores “vendem” despudoradamente seu rebanho em conchavos políticos. Hoje em dia o político disputa muito mais o apoio dos chefes religiosos do que, por exemplo, dos líderes sociais como presidentes de associações de bairros, de moradores e de seguimentos organizados da sociedade civil.
É uma aberração. E ainda criticam o fundamentalismo dos talibãs afegãos...
O Brasil precisa urgente discutir seus problemas. Precisamos saber o que os candidatos a presidente pensam sobre questões cruciais para o nosso Desenvolvimento, Educação, Saúde, Direitos Humanos, etc. No entanto, o que se vê são questões de foro íntimo prevalecendo sobre as questões que realmente nos interessam.
Deus merece muito mais, entretanto, em nossos fervores íntimo-particulares.
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