Semana de crise tira o brilho da estrela e abala a militância: o abacaxi não foi descascado

A semana terminou, finalmente. Depois de convenções, e muito reboliço o que se viu, infelizmente, foi o PT descendo a ladeira do sonho e da esperança. Perdendo no Tocantins, a condição de reserva moral. Em uma semana a militância sofreu o duro golpe ...

As versões dos fatos que levaram o PT de terceira via a sobrepeso no palanque do PMDB esta semana já são do conhecimento de todos. Estão publicadas nas matérias que alimentaram nosso sítio eletrônico durante toda a semana. Diante dos fatos, datas, horários e detalhes de seus encontros com Vicentinho e João Ribeiro, o candidato ao senado do PT confirmou o roteiro, e negou o conteúdo do script.

Depois da quinta-feira turbulenta para Mourão, veio a sexta-feira à noite, com novas revelações, desta vez do prefeito Raul Filho. E escancarou-se para o público em geral e para a militância do PT um enredo digno de novela da Globo: traições, mentiras, manobras, com direito a acusações de pedido de dinheiro ao adversário para manter uma campanha petista. Senhores, não é coisinha pouca. Não dá para ignorar.

Vencido no voto

Acusado pelo primo e também candidato ao Senado, Mourão apresentou sua versão para o mesmo fato, inegável: sim, ele conversou sobre apoio duas vezes com o suposto “inimigo”. Uma em Brasília, outra no apartamento da irmã em Palmas. Sim, fez isso às escondidas, enquanto dizia aos companheiros que estava “à caminho” da reunião com o PT. O conteúdo da conversa, quem “tentou” quem, já interessa pouco. Agora é palavra contra palavra.

Se ficasse só aí, tudo bem. Estamos falando em adversários e cada um defende seus interesses. Mas o golpe faltal na imagem de um PT diferente dos outros partidos, que nunca governou o Estado, (portanto não carregava sobre si o ônus de nada) veio na sexta-feira. Raul Filho é “o cara” que enfrentou Siqueira quando ninguém tinha coragem, lembram? É o prefeito que se elegeu primeiro e criou condições para o rompimento de Marcelo Miranda.

Sem entrar no mérito de quem é “bom”, ou “mau”, na visão maniqueísta do mundo, Raul foi protagonista de um momento histórico da política tocantinense: a quebra de uma hegemonia começou com ele, e seguiu-se com Marcelo Miranda, por mais que se possa falar dos erros cometidos por ele e seu governo depois.

Ao dizer aqui que não vai discutir com quem perdeu “no voto”, Mourão usa de uma retórica que esbarra sobre a constatação óbvia de que o único voto decisivo no PT é o do "companheiro presidente" Donizete. Como se viu, ele comanda fácil uma maioria que o acompanha. Raul perdeu o voto de Donizete, e Mourão o conquistou – ninguém fora da cúpula pode dizer como - já que até o ano passado Mourão não tinha sequer condições morais para ficar no PT depois de aceitar pasta de secretário no governo Marcelo. Saiu para não ser expulso, e só não está filiado ao PMDB hoje por que não houve tempo: o governador foi cassado em setembro.

Engolindo o caroço

Com a estrela manchada pelas suspeitas claras publicadas esta semana, o PT do Tocantins está numa encruzilhada. Vai seguir em frente como se nada tivesse acontecido, após manter a candidatura do Senador? A direção vai ignorar prefeitos, vereadores e a militância partindo para uma campanha onde faltam explicações, e com a credibilidade claramente abalada? A pergunta não é minha, pode ser ouvida por dois de cada três líderes petistas com quem se conversa.

O que me intriga é se o governador Carlos Gaguim vai engolir esse “caroço” que foram os adjetivos usados contra ele por Mourão - revelados por Vicentinho, e confirmados por Raul – como se fosse coisa normal acusar o outro de ser “chefe de quadrilha”. Até quem não é do grupo governista se ofendeu. Afinal, o homem é o governador do Estado. Se existem provas contra ele de crimes, é a hora para que elas sejam apresentadas. Caso contrário quem falou tem que engolir o que disse. O que não dá, e os nossos leitores deixam claro em seus comentários no Site, é ver os dois subindo no mesmo palanque como se nada tivesse acontecido. Tudo tem limites.

É evidente que na política o grau de tolerância com as diferenças – especialmente numa eleição - estão acima dos suportados pelas pessoas comuns na vida normal. Mas a dose de revelações que vieram às claras para a sociedade tocantinense esta semana, na minha opinião, exorbitam o aceitável.

A militância do PT

Trocando impressões com o amigo e marqueteiro Melck Aquino esta semana ele me disse: “esqueça o PT que você conheceu nos áureos tempos da década de 80, na UFG, em Goiás. Ele não existe mais”. Isso por que na minha análise que pode até ser poética, a base do partido não suportaria ser envolvida em tanta bandalheira e seguir em frente, à moda do avestruz, que enterra a cabeça na areia, e pensa que está escondido.

Eu respeito e admiro a militância do PT, por que a conheço há 25 anos, desde os tempos de movimento estudantil, passando pela eleição de bons nomes à Câmara Municipal de Goiânia (Marina Sant’Ana e tantos outros). Sei que é gente que acredita em sonhos, que vive com simplicidade, mas defende suas bandeiras. Além dos “intelectuais” que estão nos sindicatos, nas universidades há os que estão no interior, na zona rural, calejando as mãos, e usando com orgulho uma estrela no peito.

Antes que os internautas comecem a criticar, é preciso dizer que conheço sim o PT dos mensaleiros, do ex-ministro denunciado pelo caseiro, e não perdi a memória dos muitos escândalos. Só penso que a base, a militância, não é feita por estes homens que tramam nos encontros secretos, ajudas financeiras que ultrapassam a casa dos milhões.

Se for excesso de inocência, me desculpem. Mas penso que a autêntica militância do PT foi traída, e não vai por a cara nas ruas para defender ninguém que não sinta, efetivamente, que a representa. O abacaxi está aí, é grande, e não se iludam os donos da legenda e do horário na TV: ainda não foi descascado.

Comentários (0)