Vou-me embora pro Tocantins, lá sou amigo do rei

O jornalista Flávio Herculano discute em seu novo artigo fatos recentes sobre detalhes interessantes sobre as relações políticas no Estado. "O Tocantins costumou ser para um grupo de pessoas como a imaginária Passárgada do poema de Manuel Bandei...

Em dezembro de 2005 um tocantinense ganhou as manchetes nacionais: Missilvan Chavier dos Santos. Ex-candidato a prefeito de Tupiratins derrotado por uma diferença de apenas 51 votos em 2004 e ex-candidato a deputado estadual, ele notabilizou-se ao ser preso tentando transportar 500 quilos de cocaína. Ficou famoso com o apelido de “Parceirinho”. Na última semana, seu nome esteve novamente envolvido em controvérsias, porém sem o alarde de antes. Passou quase despercebido em meio a uma lista de 42 pessoas e empresas beneficiadas pela venda irregular de lotes públicos do Estado com valores até 87% abaixo do praticado no mercado imobiliário.

Teriam sido mais de 280 os lotes vendidos no apagar das luzes da gestão do ex-governador Carlos Gaguim, sem autorização legislativa e sem o devido processo licitatório, através de venda direta. De acordo com a tabela da Orla S.A. (empresa que tem contrato com governo estadual para comercializar áreas públicas), o prejuízo para o Estado deve superar os R$ 5 milhões.

Tentando reverter a perda, o Ministério Público Estadual (MPE) deu entrada em uma ação cautelar na qual Parceirinho é réu juntamente com nomes como o da também ex-candidata a deputada estadual Marcilene Ribeiro; o do ex-diretor da Escola Técnica Federal e presidente do PSDC, Adail Pereira Carvalho; e o de Ana Clara Costa Ayres, filha do ex-presidente da Jucetins e militante do PMDB, Hercy Filho. Também figuram na lista advogados, agropecuaristas e empresários, incluindo nomes dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Goiás, segundo o MPE.

O Tocantins costumou ser para um grupo de pessoas como a imaginária Passárgada do poema de Manuel Bandeira. Aqui, elas são amigas do rei. Aqui são felizes. Têm a vida como uma eterna aventura porque podem fazer o que querem, inclusive a despeito da lei. E o episódio da farra com lotes públicos é apenas mais um que nos mostra quem são alguns destes privilegiados e o quanto as oportunidades lhes são diferenciadas.

Há os privilegiados também nas licitações públicas, na prestação de serviços ao governo, nos cargos de confiança. Nas trocas de governantes muitos nomes conseguem se manter “amigos do rei”. Outros perdem os privilégios e, coincidentemente, perdem também o propalado amor que sentiam por Palmas, decidindo voltar para suas terras de origem. Tem também a outra leva costuma vir de fora, com a garantia que se integrará ao grupo de amigos do rei e fará do Tocantins a sua sonhada Passárgada.

Se no Tocantins o sol nasce para todos, a sombra e água fresca têm sido para poucos. E, morando em Palmas, convive-se de perto com o poder e sabe-se bem do privilégio destes poucos. Disso, gera-se o sentimento de exclusão, desesperança e imobilidade social, apesar do esforço para se qualificar e fazer o melhor em seu trabalho, morando num estado ainda tão jovem.

Em mais de oito anos morando no Tocantins, não conto o número de amigos, colegas e conhecidos que vi voltar para sua terra natal ou que foram atrás de horizontes mais amplos em outros estados, pelo sentimento de exclusão e pela desesperança. Por não serem amigos do rei.

Comentários (0)