A receita “invisível” dos eventos: economia criativa que nenhum gestor deve ignorar

Do Rally que lotou 75% da rede hoteleira ao show internacional de aniversário, Palmas mostrou por que eventos de cultura e esporte são investimento, e por que abrir mão deles tem um custo

Crédito: Divulgação

Quando o mundo se volta para a Copa do Mundo de 2026, sediada por Estados Unidos, Canadá e México, a discussão deixa de ser apenas esportiva. Megaeventos dessa magnitude movimentam hotelaria, transporte, alimentação, comércio e serviços em escala que extrapola em muito o gramado, e os entes públicos que os recebem disputam justamente o que vem depois do apito final: arrecadação, emprego e projeção da marca da cidade. O futebol? Um mero pretexto. O que de fato se movimenta? A economia.

 

 

Essa lógica não é exclusiva dos grandes torneios internacionais. Ela se reproduz, na proporção de cada lugar: em festas juninas, réveillons, carnavais, festivais gastronômicos, shows de aniversário de cidade e competições esportivas de pequeno porte, como uma simples corrida de rua. Do ambulante que vende água na fila ao hotel que lota na alta temporada, há uma cadeia inteira que respira (aliviada) quando a cidade vira palco. Tratar o evento como gasto supérfluo, e não como investimento com retorno, é um erro de classificação que custa caro à economia local.

 

 

A festa como cadeia produtiva, não como luxo

 

 

A chamada economia criativa não é um nicho cultural à margem do orçamento (ou ao menos, não deveria ser). É um setor produtivo com encadeamentos para frente e para trás: o evento contrata músicos, técnicos de som e luz, montadores de estrutura, costureiros, seguranças e equipes de limpeza, e ao mesmo tempo enche restaurantes, bares, pousadas, aplicativos de transporte e o comércio de rua. Cada real investido pela administração não se esgota no palco. Ele circula, troca de mãos várias vezes e parte dele retorna ao próprio município sob a forma de tributo, sobretudo o Imposto Sobre Serviços (ISS), que incide exatamente sobre hospedagem, alimentação fora do lar, ingressos, locação de espaços e serviços de eventos.

 

É por isso que o ordenamento jurídico brasileiro não trata cultura, lazer e desporto como concessões facultativas do gestor da vez. A Constituição de 1988 garante o pleno exercício dos direitos culturais e o incentivo à valorização da cultura (art. 215), reconhece o lazer como direito social (art. 6º) e impõe ao Poder Público o fomento ao desporto como dever do Estado (art. 217). Mais do que isso, a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, instituída pela Lei nº 14.399/2022, estruturou o financiamento contínuo da cultura como política de Estado, com repasses federais regulares aos municípios.[1] O legislador já decidiu que fomentar a vida cultural e esportiva é investimento estruturante, não despesa de mera ocasião ou de conveniência política.

 

 

O que um grande evento faz por uma cidade?

 

Palmas tem na própria história recente a melhor demonstração desse efeito. Quando recebeu uma etapa do Rally dos Sertões, uma das maiores provas de off-road do mundo, a capital sediou o descanso obrigatório da competição, com a Vila Sertões instalada no Centro de Convenções e show da Esquadrilha da Fumaça. A passagem da prova levou à cidade um público estimado em cerca de 5 mil pessoas, entre pilotos, equipes, imprensa e visitantes, e gerou estimativa de 75% de ocupação da rede hoteleira, além de impacto direto sobre restaurantes, bares e transporte.[2] Um único evento esportivo, em poucos dias, fez o que nenhuma campanha publicitária faria sozinha: encheu hotéis, abasteceu o comércio e projetou o destino nacionalmente.

 

 

No campo das celebrações, o aniversário da cidade tornou-se vitrine. Em maio de 2024, a comemoração dos 35 anos trouxe à Avenida Teotônio Segurado o DJ Alok, um dos maiores nomes da música eletrônica mundial, em um espetáculo que reuniu milhares de pessoas, com queima de fogos e show de drones, na esteira de atrações como Léo Santana, em 2022, e Simone Mendes, em 2023.[3] No fim de ano, o Réveillon oficial na orla mobilizava de 20 mil a 30 mil pessoas a cada virada.[4]

 

Ao lado das grandes atrações, a cidade desenvolveu eventos pensados para irrigar diretamente a base da pirâmide econômica. O Festival Gastronômico de Taquaruçu, consolidado como um dos maiores do gênero na região Norte, distribui anualmente cerca de R$ 150 mil em premiações e abre vagas, com cotas para moradores do distrito, a pequenos cozinheiros, food trucks e estabelecimentos locais.[5] As vilas gastronômicas que orbitam esse e outros eventos funcionam como verdadeiras incubadoras de microempreendedores da alimentação, que ali encontram vitrine, fluxo de clientes e oportunidade de crescer.[6] É a economia criativa cumprindo o papel que melhor sabe desempenhar: redistribuir oportunidades concretas.

 

 

O custo de oportunidade que não aparece na planilha

 

Há, naturalmente, uma tensão legítima a se encarar. Diante de orçamentos pressionados e de eventuais quedas em transferências federais e estaduais, todo gestor é obrigado a discutir prioridades, e a defesa da qualidade do gasto público é argumento sério. Ninguém sustenta ou defende que festa deva competir com saúde por um mesmo cobertor curto.

 

 

O ponto de tensão é bastante sutil, e é justamente aqui que muitas administrações erram (e feio) a conta. Quando uma cidade deixa de realizar seus maiores eventos de massa (ou de promover outros fora do “roteiro oficial”), não há uma linha no orçamento que mostre a perda disso. O custo evitado aparece bem visível; já a receita que se deixa de arrecadar, não. E essa receita existe: é a diária de hotel que não foi vendida, a comanda que não foi aberta, o ISS que não foi recolhido sobre o serviço que não foi prestado, o dia de trabalho que o ambulante não teve. Cada evento descontinuado apaga uma despesa da planilha e, em silêncio, apaga também a movimentação econômica e a arrecadação marginal que ele geraria. Essa segunda perda, por não estampar qualquer manchete, é a que mais falta faz quando o caixa aperta.

 

 

A prudência fiscal madura não confunde economia com mera supressão de despesa. Ela exige aferição. O caminho correto não é escolher entre “fazer ou não fazer”, mas qualificar: editais transparentes, contrapartidas claras, priorização dos eventos de maior efeito multiplicador e, sobretudo, aferição de impacto econômico, com indicadores de vendas, empregos temporários e fluxo comercial que permitam à população enxergar o retorno de cada real aplicado.[7] Investir com método é o oposto de gastar por impulso, e é também o oposto de cortar no escuro.

 

 

A força motriz que não se pode negligenciar

 

Eventos da economia criativa e do esporte são uma importantíssima força motriz da economia dos municípios. Não são adereço de gestão nem cortesia ao eleitor: são política de desenvolvimento, com lastro constitucional e legal e com retorno aferível em emprego, renda e arrecadação. E são disputados. O grande rally, o festival nacional, o circuito esportivo, o show de peso, todos têm um número limitado de praças por temporada, e vão para as cidades que correm atrás, articulam patrocínio e ousam, não para as que se acomodam no calendário mínimo e esperam o turista chegar sozinho.

 

 

Aí reside a escolha que define verdadeiramente uma gestão. Há a cidade que trata o evento como vitrine econômica e disputa cada edição como quem disputa investimento, porque é exatamente disso que se trata. E há a que enxerga apenas a fatura, corta o que dá mais trabalho e comemora a despesa poupada, sem perceber que poupou junto o movimento dos hotéis, o giro do comércio e o dia de renda do ambulante. A primeira colhe economia aquecida e cofre mais cheio. A segunda economiza no papel e empobrece na rua. Fazer evento com planejamento não é esbanjar: é, com método e responsabilidade, fazer girar a própria economia local. O gestor do município que renuncia a essa força motriz não corta um luxo; ele abre mão, calado e só, da receita que ela traria.

 

 

*Gustavo Bottós é pai, casado, advogado graduado em Direito pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e reside em Palmas/TO desde 2006; pós-graduado em Direito Público, Direito Civil e Direito Processual Civil. Ocupou, dentre outros, os cargos de Secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação de Palmas (2012); Subsecretário de Estado da Saúde do Tocantins (2015); Secretário-executivo de Desenvolvimento Urbano e Serviços Regionais de Palmas (2020/2021); Secretário de Desenvolvimento Econômico e Emprego de Palmas (2022), Secretário de Governo e Relações Institucionais de Palmas (2024) e Secretário da Casa Civil de Palmas (2023/2024). Atualmente é Assessor Especial Jurídico da Corregedoria do Conselho Regional de Medicina do Tocantins (CRM/TO), Consultor de Políticas Públicas do SEBRAE Tocantins e Consultor Jurídico para Assuntos Legislativos junto à Federação das Indústrias do Estado do Tocantins (FIETO)

 

 


[1]Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022, que institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/l14399.htm

[2]“Rally dos Sertões tem programação em Palmas a partir desta sexta, 02”. Prefeitura Municipal de Palmas. Disponível em: https://www.palmas.to.gov.br/rally-dos-sertoes-tem-programacao-em-palmas-a-partir-desta-sexta-02/

[3]“Show de música e tecnologia celebra aniversário de Palmas”. Prefeitura Municipal de Palmas, 20 maio 2024. Disponível em: https://www.palmas.to.gov.br/portal/noticias/show-de-musica-e-tecnologia-celebra-aniversario-de-palmas/37669/

[4]“Palmas deve ficar sem Réveillon oficial em 2025; gestão diz que R$ 9,5 milhões serão destinados à alimentação e à saúde pública”. Sou de Palmas, 26 dez. 2025. Disponível em: https://soudepalmas.com.br/editorial/palmas-deve-ficar-sem-reveillon-oficial-em-2025-gestao-diz-que-r-95-milhoes-serao-destinados-a-alimentacao-e-a-saude-publica

[5]“Prefeitura de Palmas lança edital do Festival Gastronômico de Taquaruçu com R$ 150 mil em premiação”. Prefeitura Municipal de Palmas. Disponível em: https://www.palmas.to.gov.br/prefeitura-de-palmas-lanca-edital-do-festival-gastronomico-de-taquarucu-2025-com-r-150-mil-em-premiacao/

[6]“Capital da Fé 2026 encerra com vilas gastronômicas lotadas e fortalecimento do empreendedorismo local”. Prefeitura Municipal de Palmas, fev. 2026. Disponível em: https://www.palmas.to.gov.br/core/noticias/capital-da-fe-2026-encerra-com-vilas-gastronomicas-lotadas-e-fortalecimento-do-empreendedorismo-local/

[7]Sobre o Termômetro de Impacto Econômico dos Eventos, ver: “Capital da Fé 2026 encerra com vilas gastronômicas lotadas e fortalecimento do empreendedorismo local”. Prefeitura Municipal de Palmas, fev. 2026. Disponível em: https://www.palmas.to.gov.br/core/noticias/capital-da-fe-2026-encerra-com-vilas-gastronomicas-lotadas-e-fortalecimento-do-empreendedorismo-local/

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