Matéria da Rastro destaca empreendedoras do jornalismo digital e foca no T1

Em entrevista à Rastro (UFT), jornalista detalha duas décadas de enfrentamento ao mercado tradicional e as barreiras que ainda limitam as mulheres na comunicação

Crédito: Arquivo Pessoal

“O maior desafio era fazer uma cobertura mais ampla, com uma estrutura de pessoal pequena e manter a independência.” O desabafo da jornalista Roberta Tum, de 56 anos, sintetiza a realidade de quem decidiu abrir caminhos na comunicação digital no Tocantins quando a internet ainda dava seus primeiros passos na região. Fundadora do portal T1 Notícias, Roberta é o rosto de um movimento de resistência e reinvenção liderado por mulheres que, diante de um mercado de trabalho tradicionalmente masculino e precarizado, encontraram no empreendedorismo o caminho para a autonomia profissional e gerar oportunidades para outras profissionais da área da comunicação no Tocantins.

 

Com passagem pelo jornalismo impresso e criadora de periódicos voltados para o interior do estado ainda na década de 90, Roberta enxergou na agilidade da internet o futuro do jornalismo regional e do jornalismo político, gênero em que se consolidou como grande referência no estado. A grande virada de sua carreira ocorreu em 2009, durante o processo de cassação do então governador à época, Marcelo Miranda (MDB). Ao apostar em coberturas da política local em tempo real, o portal conquistou a liderança em audiência. Roberta considerava as abordagens superficiais na cobertura política local. “Aí eu entendi que a gente podia disputar e ser primeiro lugar no estado. Fomos primeiro lugar durante muito tempo”, relembra da trajetória.

 

Contudo, manter um veículo independente no Tocantins exige fôlego financeiro e resiliência, além de uma ampla articulação política. Roberta aponta que os custos de produção de um portal se equiparam aos de um jornal impresso, com o agravante de lidar com as oscilações econômicas de um estado cuja arrecadação é fortemente dependente do setor público, além da instabilidade política gerar inseguranças, até mesmo para quem atua com comunicação independente. Atualmente, o desafio comercial soma-se também à necessidade de adaptação à migração dos leitores para as redes sociais. “Temos um compromisso com a notícia, com a checagem e com a credibilidade, e não com a espetacularização”, defende a jornalista.

 

A bagagem no jornalismo impresso foi o combustível para que Roberta ultrapasse a fronteira do periódico para a internet no final da década de 1990. Naquela época, ela colocou no ar uma das primeiras páginas eletrônicas do Tocantins, o "Alô Galera”, voltado para juventudes que circulava em dezenas de municípios do Estado. Como ela mesma define: “Venho do jornalismo impresso e queria manter vivo esse modelo”.

 

Esse histórico foi contextualizado em uma reportagem veiculada na "Rastro, Assessoria de Imprensa Laboratorial", do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Tocantins, com orientação e coordenação do profa. Dra. Marluce Zacariotti, que abordou a trajetória e os desafios de mulheres jornalistas donas dos seus negócios. Leia na íntegra aqui.

 

Preconceito e veto político

A trajetória da jornalista também foi marcada por enfrentamentos para além das linhas editoriais. Roberta relata ter sido alvo de processos judiciais, ataques pessoais e tentativas de intimidação devido às suas denúncias políticas, atualmente, teve seu perfil pessoal na Meta, instagram e facebook desativados. Enfrentou ainda o preconceito de gênero e a lesbofobia no ambiente institucional. “Eu cheguei a ter meu nome vetado em uma indicação para a Secretaria de Comunicação do Estado com a justificativa de que uma mulher com a minha orientação sexual não poderia assumir o cargo”, revela.

 

Para ela, ter se mantido relevante no mercado por mais de duas décadas é uma vitória que abre caminhos para as próximas gerações do jornalismo no Estado. “Hoje eu sinto que a gente já quebrou muita barreira e isso ajuda muito quem está chegando agora”.

 

Desigualdade em números: o retrato da redação brasileira

A realidade vivenciada por Roberta Tum encontra eco em estatísticas nacionais que evidenciam a vulnerabilidade das mulheres no jornalismo. Embora sejam maioria nas universidades de comunicação e representarem cerca de 60% das profissionais formadas na área, a liderança e a remuneração ainda não refletem essa proporção. Dados da Global Media Monitoring Project (GMMP), apresentam que mulheres têm 62% de presença nas redações brasileiras, dados da Fenaj mapeiam que em cargos de decisão são 21% a 27% de mulheres, a diferença salarial é de 18% a menos que profissionais do gênero masculino. Mais de 80% das profissionais jornalistas mulheres apontam que já sofreram discriminação no ambiente de trabalho e abusos psicológicos ou intimidações.

 

Além de apontar que as mulheres são as maiores vítimas de assédio moral e sexual no mercado da comunicação, os dados evidenciam que elas são as mais afetadas por vínculos de trabalho precarizados, atuando frequentemente como freelancers ou sob contratos de Pessoa Jurídica (PJ).

 

A realidade e os desafios no território

No Tocantins, as transformações do mercado ganham contornos ainda mais complexos. O artigo fruto de uma pesquisa realizada pelas jornalistas Júlia Carvalho e pela Profa. Dra. Marluce Zacariotti, revelam que as redações de Palmas sofrem com equipes reduzidas, acúmulo de funções e forte instabilidade empregatícia. Outro fator de desgaste psicológico apontado no estudo é a proximidade física e social com as fontes, especialmente políticos e empresários, uma característica marcante em uma Capital jovem e em desenvolvimento, o que eleva a pressão sobre o jornalista que busca manter a isenção.

 

Além desse desafio, considera ainda jornadas múltiplas de trabalho que dividem o tempo das profissionais entre os plantões, a maternidade e a vida privada. Mulheres na comunicação têm ocupado espaços de protagonismo no estado, mas continuam expostas a disparidades salariais e posições de destaque nas redações, além da exposição à violência de gênero, que migrou com força para a internet na última década.

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