A história de Heathcliff e Catherine que nenhuma adaptação conseguiu esgotar

Ao analisar os desafios de transpor o duplo enquadramento narrativo do romance para as telas, artigo destaca a versão cinematográfica de 1992 como o marco que revelou o talento de Ralph Fiennes

Crédito: Divulgação

Umas das histórias literárias mais readaptadas da língua inglesa está disponível gratuitamente em streaming na versão cinematográfica de 1992 com Ralph Fiennes e Juliette Binoche. O morros dos ventos uivantes de Emily Brontë foi publicado em 1847, adaptado para o cinema pela primeira vez em 1920 e continua gerando novas versões em 2026, o que diz algo fundamental sobre o material: não existe uma interpretação definitiva que esgote o que ele tem a oferecer.

 

O que torna a história tão resistente à conclusão

A maioria das grandes histórias tem uma moral implícita. Wuthering Heights tem uma ambiguidade irresolvível. Heathcliff é vítima ou perpetrador? Sua obsessão com Catherine é amor ou possessividade destrutiva? A sociedade que o oprimiu é responsável pelo que ele se tornou ou sua crueldade com pessoas inocentes o exclui de qualquer simpatia? O romance de Brontë permite, e talvez incentive, que o leitor responda essas perguntas de formas diferentes dependendo do ângulo de entrada.

 

Essa abertura interpretativa é o que faz cada nova adaptação ser potencialmente interessante. Uma diretora como Andrea Arnold, em 2011, usou o material para falar sobre raça e classe de forma que Wyler em 1939 não poderia ou não quis fazer. Emerald Fennell, em 2026, traz para o filme sua própria perspectiva sobre dinâmicas de poder entre gêneros que o texto original suporta mas que versões anteriores subdesenvolveram. O romance permanece disponível para novas leituras porque é suficientemente complexo para sustentá-las.

 

A estrutura narrativa e como ela funciona na tela

Um dos desafios específicos de adaptar Wuthering Heights para o cinema é a estrutura narrativa de duplo enquadramento do romance, onde um narrador conta a história para outro, que conta para o leitor, criando uma distância temporal e perspectiva que a linguagem cinematográfica normalmente colapsa ao apresentar os eventos diretamente. Cada adaptação resolve esse problema de forma diferente.

 

A versão de 1992 opta pela eliminação quase completa do enquadramento narrativo, apresentando a história em ordem cronológica com alguns saltos temporais. Essa escolha ganha em clareza o que perde em ironia, pois o espectador assiste aos eventos sem o filtro de perspectiva que os narradores do romance interpõem entre os fatos e a interpretação deles.

 

Ralph Fiennes antes da fama

Uma das curiosidades da versão de 1992 é que Fiennes estava completamente desconhecido do grande público quando foi escalado para o papel. O ator tinha uma carreira respeitada no teatro britânico mas nenhum papel cinematográfico de destaque. A performance de Heathcliff, construída com uma fisicalidade específica e uma contenção emocional que tornava as explosões de intensidade ainda mais poderosas, estabeleceu Fiennes como um dos atores britânicos mais importantes da sua geração.

 

Schindler's List viria no ano seguinte, em 1993, consolidando a reputação. Mas para quem quer ver Fiennes num papel anterior às personagens que o tornaram amplamente reconhecido, O Morro dos Ventos Uivantes é um registro valioso de um ator construindo uma carreira com escolhas de papel que revelam critério artístico claro desde o início.

 

A relevância do romance para o espectador contemporâneo

Ler Wuthering Heights em 2025 é uma experiência diferente de lê-lo em 1847, e assistir às suas adaptações cinematográficas ainda mais. O que foi revolucionário para os leitores vitorianos, um romance que apresentava um protagonista sem redenção moral e uma heroína que fazia escolhas conscientes e controvertidas, tornou-se parte de uma tradição literária que o espectador contemporâneo absorveu de tantas formas que precisa de esforço deliberado para recuperar a estranheza que o romance causou.

 

O streaming e o acesso à literatura clássica adaptada

Uma das funções mais valiosas que as plataformas de streaming gratuito cumprem é tornar adaptações cinematográficas de obras literárias clássicas acessíveis sem barreiras financeiras. Para estudantes de literatura, para professores que querem usar o cinema como suporte ao texto, e para qualquer espectador com curiosidade sobre obras que fazem parte do cânone literário ocidental, essa disponibilidade tem valor que vai além do entretenimento.

 

O Morro dos Ventos Uivantes é precisamente o tipo de obra que se beneficia dessa acessibilidade. Ler o romance completo de Brontë exige um investimento de tempo e atenção que nem todo mundo tem disponível. Assistir a uma boa adaptação cinematográfica é um ponto de entrada que preserva o essencial do material e que muitas vezes cria o interesse necessário para eventualmente buscar o texto original.

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