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Evento em Porto é divisor de águas na pré-campanha e revela polarização

O que se viu em Porto Nacional na sexta-feira, 15, pode ser considerado um divisor de águas na história das eleições majoritárias deste ano no Tocantins.

Crédito: Divulgação Ascom Vicentinho Júnior

O lançamento da pré-candidatura do deputado Vicente Júnior ao governo do Estado, que aconteceu em Porto Nacional na última sexta-feira, 15 de maio, pode ser considerado um divisor de águas na história das eleições majoritárias deste ano no Tocantins.

 

Não foi só marketing - embora muito bem planejado e executado o evento - nem foi só mobilização de caravanas de apoiadores. O retrato do público que compareceu ao Centro de Convenções Comandante Vicentão foi de muita qualidade. Não se viu militância catada nas ruas, a soldo, para empunhar bandeiras. Vi advogados, servidores públicos, pioneiros, muita gente de idade e bastantes quadros expressivos de juventude.

 

Se Porto tem tradição cultural, é inegável que tem também tradição política e, embora muitas de suas lideranças expressivas possam estar em outros palanques - a exemplo de Ricardo Ayres, do prefeito Ronivon e de Paulo Mourão -, a família Vicente Alves mostrou o peso que tem no cenário, atraindo um público diverso e expressivo para ouvir a mensagem que o grupo quis levar.

 

O crescimento - real - do nome do deputado Vicente Jr. se deve a vários fatores. Sem olhar pesquisa qualitativa e observando as redes, as ruas e as rodas de conversas sobre política nas últimas semanas, tirei algumas conclusões no exercício que faço de análise política no Tocantins há mais de 30 anos. Vamos a elas.

 

O primeiro fator passa, sem dúvida, pelo gênero. Vicentinho, o Júnior, é a preferência do público eleitor masculino, em sua maioria. Tem identidade com o eleitor médio tocantinense. É de direita, maioria expressiva também do eleitorado. Tem origem rural. No seu conservadorismo, se aproxima do eleitor cristão por católico. É ligado de fato (e não por invencionice ou oportunismo eleitoreiro) às maiores tradições do povo originário do Estado.

 

O segundo fator, para além das suas qualificações, é a família. O Tocantins é terra de famílias na política. Observando o cenário do evento, logo na chegada - ao lado dos veículos de som automotivo tocando batidas envolventes - já encontrei Neto Aires, prefeito de Ipueiras e irmão do pré-candidato a governador. Mais adiante, Dr. Thiago, prefeito de Pindorama, entrada do Jalapão, também irmão de Vicente Júnior. No palanque, atrás, discreto, mas abraçando todo mundo com o jeito pacato de sempre, o pai, Vicente Alves, ex-senador da República. Siqueirista de carteirinha que nunca mudou de rumo.

 

E no meio do público, saudada antes pela engenheira portuense e pré-candidata a deputada federal, Roberta Castro, a mãe de Vicente, dona Adaildes. Até ela o pré-candidato caminhou para “tomar a bênção”, antes de começar o evento.

 

Além de família, família que sempre esteve de um lado só. Raiz forte tocantinense. Juntou-se numa chapa só com a família Cayres, que, como disse o presidente da Assembleia, deputado Amélio Cayres, em seu discurso, “tem palavra que não faz curva”.

 

Se os Barbosa são também a expressão desta tradição familiar, no Taquaruçu do Porto, e geraram Wanderlei, o curraleiro, atual governador com a força da identidade tocantinense, os Alves geraram Júnior, o sertanejo. Que também não fica atrás.

 

O perfil, os costumes, o jeito de fazer política é bem característico do povo do sertão.

 

Isso por si só traz uma carga de identificação poderosa com o eleitor.

 

Por outro lado, tem o vácuo. E política não permite vácuo. Vicente Jr. percebeu isto lá atrás, em meados de agosto do ano passado. Há muito tempo parecia que esta eleição estava fadada a ser mais um W.O. Os fatos da política recente abalaram estas estruturas.

 

Para o deputado federal, deixar a vaga de deputado para tentar o voo de Senador já era um passo grande e ousado. O pulo de Senado para governo na pré-candidatura foi leitura de cenário e senso de oportunidade, na minha modesta opinião, mais do que qualquer “empurrão” circunstancial que o grupo governista possa ter lhe dado em uma ou outra situação.

 

O fato é que o evento em Porto pode ser resumido em uma palavra: impactante.

 

Quem foi e viu de perto pode sentir que a campanha ali carrega sentimento parecido com aquela 2010 em que, contra todas as probabilidades, Siqueira venceu Gaguim, que tinha o governo na mão e 114 prefeitos.

 

Claro que isso não quer dizer que a história se repetirá. Cada eleição é uma nova realidade. Porém, para quem achava que haveria recuo, que a chapa não tinha força, que a nominata era frágil, Porto foi sinal inequívoco de que não.

 

É óbvio que nessa massa tem ingredientes poderosos. É o caso de Amélio Cayres, o grande, que chegou depois do evento da Asscam. E da ex-prefeita Cinthia Ribeiro, que desceu do palanque de Laurez definitivamente e passou por cima das diferenças geradas pela retirada abrupta do comando do ninho tucano que ocorreu na chegada de Vicentinho. Este, num momento do discurso, chegou a chamar Cinthia e dizer que, com seu pai, aprendeu a pedir perdão.

 

Por hora, o que se vê é que a campanha nem começou, mas quem acompanha política sabe que está desenhada a polarização entre dois candidatos do mesmo campo político-ideológico. Se haverá contraponto a eles vai depender de vários fatores.

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