Existem duas campanhas em curso nesta eleição. Uma é a que se passa nos gabinetes, escritórios políticos e rodas de análise e discussão da cúpula de cada coligação com seus marqueteiros e advogados. Outra é a que está nas ruas, influenciando as decisões e abalando emocionalmente o eleitor.
Quem está na primeira, mede a temperatura das ruas por seus instrumentos científicos: pesquisas quantitativas, testes nos grupos para descobrir o resultado das últimas notícias, ações na justiça, aparições na TV. Quem está na segunda assiste o confronto das militâncias, a atuação nem sempre isenta da polícia militar, acionada toda vez que acontece uma confusão e ouve o discurso que está na boca do povo: a voz rouca das ruas.
Tenho transitado nas duas pontas nos últimos dias para tentar entender esta reta final, e de tudo que vejo percebo que o eleitor comum está assustado com a voracidade dos ataques, com a falta de respeito à vida pessoal e à família, e com o jogo de vale tudo que atropela as melhores relações de amizade.
Dois programas para dizer tudo
A fase paz e amor da campanha ficou lá atrás. A proximidade do dia 3 de outubro força cada um dos grupos a tentar discutir tudo, colocar todos os “podres”, do adversário para fora, nos palanques, nos telões e na TV. Tudo que não foi dito até agora e que pode influenciar sua excelência o eleitor na hora do voto, aparece como cartas mágicas na manga com suposto poder de virar o jogo. E não é bem assim.
Tudo tem um limite e a capacidade do cidadão comum de assimilar tanta informação – nesta hora mais negativa do que positiva – está praticamente esgotada. Eu já disse aqui que a semelhança nas propostas confunde o eleitorado. Que não foi traçado um divisor claro entre os dois “programas de governo”, se é que isto existe, já que o único partido que discutiu com a sociedade o que iria fazer foi o PT, que ficou fora da disputa pelo governo.
Em quem o eleitor acredita?
A percepção que eu tenho alternando comícios, observando o olhar e a expressão do eleitor de verdade - não os cabos eleitorais pagos para carregar bandeiras, e ensaiados para gritar quando o locutor chama – é de que esta é uma eleição que será decidida pela fé, pela confiança que inspirar aqueles que estão em cima de um palanque.
Pouca atenção se presta às palavras no meio de um comício. Os discursos raramente despertam a atenção. Vai valer a confiança que os dois candidatos a governo conseguem inspirar nas pessoas, daquilo que cada um será capaz de fazer.
Se estivesse na assessoria de qualquer dos candidatos, só arriscaria um conselho, na condição de quem está de cá, no meio do povo e de frente para os palanques: não apavorem o eleitor com um festival de acusações e baixarias. É certo que o voto no Brasil é obrigatório, mas as pessoas precisam ter algo em que acreditar. Num futuro um pouco melhor que o de hoje, numa vida menos difícil de levar, na existência de líderes que tenham o coletivo como objetivo maior do que se dar bem com as vantagens que o poder oferece.
Na última semana, senhores, ofereçam algo positivo. É o que o povo espera de vocês: alguma coisa boa em que acreditar.
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