O debate exibido ontem à noite pela TV Anhanguera mostrou claramente o confronto de dois candidatos que pertencem a tempos diferentes. Emergindo depois de ter sido “linchado” – segundo suas próprias palavras - nos últimos dias por conta das investigações de São Paulo, Gaguim se mostrou confiante, foi agressivo ao abordar a vida pessoal de Siqueira, e surpreendeu ao ligar o ex-senador Eduardo Siqueira ao lobista Maurício Manduca.
Por outro lado o ex-governador Siqueira Campos mostrou estar preparado para ser confrontado sem perder a calma, recebeu os ataques com frieza, e reagiu com indignação ao ver abordados temas de sua vida pessoal, a exemplo da acusação de infidelidade no primeiro casamento.
Ataques de Gaguim roubaram a cena
Quem esperava ver um confronto de propostas entre dois candidatos que conhecem a estrutura administrativa do governo, terminou o debate frustrado. Siqueira Campos até tentou tirar a conversa do foco das acusações sobre seu temperamento feitas por Gaguim (“seu modelo de governabilidade é decidir sozinho”), mas o governador demonstrou ter ido para o debate decido a expor os pontos que considera frágeis no perfil do oponente.
Sistematicamente e por repetidas vezes, Gaguim buscou reforçar no concorrente, traços de autoritarismo (relembrando a greve da PM, e retirada de benefícios aos professores), abordou ele mesmo as denúncias da Veja (para lembrar que a mesma revista já denunciou Siqueira por supostas irregularidades no passado), e trabalhou com um elemento surpresa: a afirmação de quem tem gravações que ligam Eduardo Siqueira a Maurício Manduca, o lobista que está no centro das denúncias que ligam o Tocantins ao grupo que fraudava licitações em São Paulo, ao qual pertence a O. O Lima, contratada no Tocantins pela Secretaria da Educação num processo licitatório questionado e cercado de suspeitas de favorecimento.
Siqueira mantém a calma, e aponta indícios de corrupção
Provocações que em outros tempos poderiam provocar seguramente um ataque de cólera no ex-governador Siqueira Campos, foram recebidas e respondidas com calma. Demonstrando estar preparado para o confronto, Siqueira também levou ao debate questões com potencial de fragilizar o seu oponente. Questionou o rombo deixado por Marcelo, e anunciado por Gaguim logo que assumiu; acusou o governo de corrupção, ao relembrar as estradas pagas e não concluídas conforme atestam relatórios do Tribunal de Contas do Estado; e ao comentar a conduta pessoal do governador, preservou a primeira-dama, Rose Amorim (a quem se referiu como uma moça de boa índole), mas afirmou que Gaguim não tem esta qualidade.
A acusação de ligação de seu filho Eduardo com a organização criminosa investigada pelo MPE de SP também não conseguiu desequilibrar Siqueira (“os Manduca são ligados à sua família e não à minha, conte esta história direito, rapaz). O momento mais tenso da troca de acusações no entanto ficou por conta das menções de Gaguim à supostos casos de infidelidade de Siqueira quando ainda estava casado com Dona Aureny, sua primeira esposa. O ex-governador negou ter ido ao Japão com outra mulher, e ter mandado a ex-esposa embora.
O que sobrou do chumbo cruzado em horário nobre
Fazendo uma análise fria do debate, que tem o dom de empolgar as militâncias, e dar combustível ao bate-boca que se arrastará pelas rodinhas nos próximos dias, vamos ao resumo do que ficou. Acuado nos últimos dias pelas acusações de envolvimento com organização criminosa, e suspeita de beneficiar o grupo preso em contrato público, o governador candidato conseguiu “tirar a água do pescoço”, para usar uma expressão bem popular.
O debate, sem dúvida deu sobrevida à Gaguim diante do seu próprio público, que precisava manter a confiança na sua inocência para continuar levando seu nome pelas ruas. Por outro lado os ataques à vida pessoal de Siqueira nada conseguiram tirar. O Tocantins conhece o ex-governador, nos seus defeitos e qualidades. Por isso não acredito que o debate de ontem vá lhe tirar votos.
Em resumo, o debate deu combustível às duas militâncias, mostrou que o governador não está morto na disputa, e adiou o confronto final para o dia em que ele efetivamente acontece: domingo, 3 de outubro. Para terminar, o efeito surpresa levantado por Gaguim, ao citar o ex-senador Eduardo, revirou o bolo das denúncias. O tempo é curto, mas nos próximos dois dias o relatório do MPE estará de volta à pauta da imprensa com riqueza de detalhes. Resta saber para quem isto é pior.
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