Na despedida, o desabafo e as últimas pérolas de Carlos Gaguim

Foi de uma sinceridade estonteante a fala improvisada de Carlos Gaguim, governador do Estado que vai chegando ao fim do seu mandato conquistado pela via indireta, proferida na noite de ontem, quarta-feira,29, na sala de reuniões do Palácio Araguaia p...

A Secom convidou a imprensa para a última reunião do secretariado a ser promovida pelo governador Carlos Gaguim (PMDB) antes de entregar a faixa a Siqueira Campos no próximo sábado sem especificar a pauta. O que se supunha um balanço era na verdade uma cerimônia para outorga de comendas, sendo as duas primeiras concedidas à presidenta eleita Dilma Roussef, e ao presidente que deixa o Planalto, Luiz Inácio Lula da Silva.

O Carlos Gaguim que se despediu ontem do seu secretariado está longe daquele governador recém empossado e elétrico que promovia reuniões aos domingos à tarde, e nas altas horas da noite para imprimir um ritmo acelerado ao seu governo. No desabafo, na avaliação do quadro político e nas entrelinhas do que disse ou deixou de dizer, Carlos Gaguim registrou na noite de sua despedida, algumas das suas melhores pérolas que vão entrar para a história. Vamos à elas, eu volto no fim.

Dias de tensão para acertar as contas do governo

“Eu quase não tenho dormido estes dias. No Natal eu passei cinco minutos com minha família, minha mulher, minhas filhas. Fui lá dar um abraço nos pais da Rose e voltei pra casa, preocupado com os compromissos do governo, os pagamentos”.

“Só neste mês foram mais de R$ 550 milhões: são três folhas, já pagamos duas e vamos pagar a terceira. São os empréstimos internacionais. Tentei todos estes dias levantar esse dinheiro, mas nem tudo foi possível. Infelizmente não vamos conseguir pagar todos os compromissos”

“Ontem (terça) eu estava no 20º andar do prédio do Banco do Brasil, e me deu um momento de fraqueza (...) tem horas que a gente pensa até em fazer uma besteira, mas é a preocupação”

Os motivos da derrota e a esperança do retorno

“Hoje nós estamos aqui, com essa cara de tristeza. Eu, vocês, a Rose, mas o que aconteceu foi uma fatalidade. Se somar todos os votos que o nosso grupo recebeu, são mais de 430 mil votos (...) é mais que o adversário conseguiu. Então, nosso governo foi aprovado em 100%”

“Vocês não sabem o que eu passei. Tudo que fizeram contra mim. Eu fui vítima de todo tipo de situação. Vocês nem imaginam. Mas eu gosto na política é de analisar, de ver as coisas (...) Nossa hora vai chegar”

Comparação com o adversário

“Vocês vejam bem. No dia 1º nós vamos entregar a faixa pra ele, pro Siqueira, e ele é um homem experiente, teve três mandatos de governador. Um foi de dois anos, mas conta como mandato. E até hoje ele não conseguiu completar o secretariado dele. Nós montamos o nosso em cinco, seis dias”

“Nós trabalhamos muito. Vamos deixar dinheiro garantido para as obras que estão iniciadas. Estas obras não podem ser abandonadas. É trabalho nosso. Estamos garantindo nesses últimos dias um financiamento com o BNDES que o dinheiro vai entrar aí no mês que vem, e que vai ficar para ele aplicar. Nosso governo fez muito. Tem as máquinas que a gente nem teve tempo de entregar. É muita coisa. Vão falar mal do governo, vão falar mal, mas nós fizemos, vocês fizeram um grande governo”

Na oposição e sem mágoas

“Esse pessoal que está chegando, eles vão ficar aí, no lado deles, e eu vou ficar no meu. Eu vou ficar é na oposição, vou ficar junto com os meus companheiros”

“Não tenho mágoas de quem me criticou, de quem falou de mim”.

“Vocês todos, eu estou me despedindo, agradecendo vocês tudo que fizeram por esse governo. Se não fizeram mais, a limitação foi do governo, não foi de vocês. Se faltou alguma coisa eu assumo a responsabilidade”.

No fim, o mesmo Gaguim

Enquanto o governador se despedia do seu secretariado num desabafo que alternou momentos de tristeza e suas habituais tiradas - (“A Rose é uma mulher muito bem casada. Pensa numa mulher bem casada (...) Mas até lá em casa o café anda frio”) - assessores das áreas técnica e financeira de diversas secretarias se ocupavam em cancelar os empenhos do que não será possível pagar.

O governo vai chegando a seu fim endividado e dividido entre os que avaliam que Gaguim deixa para Siqueira uma herança pior do que a encontrou de Marcelo, e os que garantem que ele fez muito e bem no período de um ano e três meses em que governou.

No último apelo pediu aos secretários que pudessem ficar para que não viajassem: “quero trabalhar até o dia 31, nem que só tenha um ou dois secretários aqui para despachar, mas vou cumprir o compromisso que fiz de trabalhar 24 horas, até o fim”.

Depois de ouvir tantas frases, entre engraçadas, dramáticas, sinceras e sofridas, fiquei com a impressão de que existem dois Carlos Henrique Amorim. Um é o que fez e desfez nos bastidores do poder que conquistou num momento difícil para o Estado.

O outro é o que fielmente acredita e vende bem o personagem de si mesmo. Um governador que se tornou caricato por ser meio exagerado, mas que conseguiu deixar sua marca em alguns feitos e realizações.

O valor da era Gaguim, vamos saber com segurança depois, com o distanciamento da história que só o tempo permite. Quanto ao custo, seremos informados em breve, quando todos os relatórios de seu governo vierem a público.

O que é a vida. Todo mundo que hoje "é", um dia será "ex", mas bem poucos se dão conta disto.

Comentários (0)