O espelho e a corrupção

A ex-presidente do Tribunal de Contas do Estado do Tocantins, conselheira Dóris de Miranda Coutinho faz um desabafo em artigo que analisa a avalanche de escândalos e notícias de corrupção....

Está se tornando cada dia mais difícil me olhar no espelho a cada manhã. Sempre tive muito orgulho do meu trabalho, da minha trajetória profissional no Tribunal de Contas do Estado do Tocantins, sempre obstinada e incansável em dar o melhor de mim à sociedade para qual presto meus serviços. Mas ultimamente, com essa avalanche de escândalos envolvendo denúncias de corrupção em todos os níveis, receio que a imagem do gestor público esteja perdendo seus contornos essenciais saindo fora de foco, como uma foto antiga que desbota no porta retrato.

E não consigo me consolar com o fato de que há corrupção em diversas esferas, instituições e Poderes, sejam públicas, privadas, eclesiásticas, ou seja lá de que ordem for. Isso não é justificativa. É como o filho que tira nota ruim na prova e se defende com o argumento de que o amigo foi pior. Curiosamente, ele nunca usa como referência aquele colega que foi melhor.

No silêncio do espelho me pergunto se essas pessoas, personagens dessa crise ética sem precedentes, se olham diariamente sem culpa e, depois de lavar a cara, beijam a família e vão trabalhar como uma pessoa normal. Será? Claro que sim. O anonimato e a sensação de impunidade lhes garante essa tranquilidade.

Todos temos visto pela imprensa proliferar os casos escandalosos de corrupção, inclusive com membros dos tribunais de contas, os quais são pagos para fiscalizar o uso do dinheiro público e velar pela sua correta aplicação. Vejo essa situação como extremamente grave, mais do que em qualquer outro órgão, porque a razão da existência dos tribunais de contas é justamente o controle dos gastos públicos e o julgamento dos gestores da coisa pública. E se quem fiscaliza está comprometido com outras razões, o que dizer de quem é fiscalizado? E mais. Diante disso, como rechaçar os apelidos de “tribunal faz de contas”, de “prêmio de consolação”?

Se por um lado percebo que nunca se mostrou tanto o espetáculo trágico dessas falcatruas – o que fortalece a democracia com apurações que não ficam mais escondidas sob os ricos tapetes do poder –, por outro me preocupa a falta de publicidade de seus protagonistas. Está faltando se dar “nome aos bois”, o que faz com que acabemos todos nós no mesmo saco de gatos, tachados de corruptos, sendo ou não culpados, envolvidos ou não nas manobras da corrupção, com a imagem desbotada sobre o móvel da sala. É preciso encorpar ainda mais esse sentido de democracia, conquistando por completo o direito à informação e à tão necessária transparência, que revelará ao povo não só as faltas cometidas como todos os nomes de quem as cometeu.

O brasileiro, absolvido da mentalidade colonial de estar eternamente “em desenvolvimento” e de aceitar ser aviltado em seus direitos sociais e fundamentais sem erguer a voz, quer ter acesso direito a informação ampla, geral e irrestrita. E eu, como cidadã proba e trabalhadora, tenho o direito de não ser confundida com bandidos endinheirados acobertados por prudentes anonimatos “em nome da lei e da ordem”. Ops, eu disse lei, ordem...?

Estou cansada de ser, a todo momento, questionada sobre a necessidade da existência da instituição na qual trabalho. Estou cansada de ver a imagem institucional dos Tribunais de Contas maculada porque alguns de seus integrantes a desonram. Volto a insistir: é preciso divulgar os nomes e sobrenomes de todos aqueles que estragam a minha manhã e afetam a minha auto-estima e a de milhões de brasileiros que formam a força trabalhadora deste país. Bom também seria acabar de vez com o foro privilegiado para toda e qualquer autoridade pública. Assim, a palavra privilégio seria somente um vernáculo esquecido nas páginas do dicionário que explica: s.m. Vantagem concedida a uma ou mais pessoas, com exclusão de outros e contra a regra geral: os privilégios da nobreza...

Então, eu veria resgatada minha dignidade e, seguramente, acordaria todas as manhãs fazendo refletir no espelho um sorriso sem vergonha de ser feliz

Dóris de Miranda Coutinho, Conselheira do Tribunal de Contas do Estado

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