O limite da gestão, o limite das pessoas e a grandeza em se admitir os erros

Não há nada que acalme mais a ira, o ressentimento e a dor da perda nos vários casos públicos de crimes, traições e erros administrativos do que um autêntico e sincero pedido de desculpas. Na cultura americana, européia e asiática, assumir o erro e s...

Abordo este tema hoje diante de dois pedidos de desculpas públicos que postamos ontem: o do prefeito Raul Filho, que não enfeitou nem iluminou a capital neste dezembro; e em outro extremo o da desembargadora Willamara Leila de Almeida, que se manifestou através de uma nota sobre a Operação Maet, não para alegar inocência, mas para se desculpar pelo que já considera um grande dano à sociedade tocantinense: o escândalo.

Em editorial que escrevi sobre a vergonha a que todos fomos submetidos naquele dia 16, tratamos justamente disto: não dá para saber o que restará provado ao final da operação, mas o constrangimento,a exposição pública, a mancha da suspeita e os “fortes indícios de materialidade” dos crimes investigados já caíram sobre a sociedade tocantinense toda.

No caso de Raul, os limites do gestor e da gestão

No caso do prefeito Raul Filho (PT), acredito nos motivos que ele alega para não ter feito a esperada, necessária e merecida iluminação de Natal este ano. Ela faz parte da nossa cultura tanto ou mais que o Reveillon da Graciosa com seus habituais fogos. Mas é o limite da gestão. Há pouco dinheiro e muito que fazer, então faz-se necessária uma escolha.

Confesso que não entendo, nem aprovo todas as escolhas feitas pelo gestor Raul. A cidade descuidada, o imbróglio das obras com recursos federais paradas, serviços básicos deficitários formam um cenário que passa a impressão de paralisia na gestão petista. Ele justifica que é a escassez de recursos e mostra as conquistas em outros setores. Tudo bem. São os limites do gestor, da gestão e dos recursos. O pedido de desculpas do prefeito ontem reflete a postura do administrador que reconhece o momento ruim que vive. Bem melhor, na minha opinião, do que agir à moda do avestruz e fingir que não acontece.

No caso dos desembargadores, o preço das escolhas

O outro pedido de desculpas, da desembargadora Willamara Leila, me fez voltar no tempo e pensar. Há sempre um momento na vida em que é preciso fazer uma escolha entre o caminho mais fácil, e o mais difícil. Quando a conheci, nos primórdios da ocupação da capital - em que todos se encontravam pelas ruas e restaurantes de uma cidade pequena e febril na sua construção - tudo estava por ser construído em sua carreira.

Frequentei sua casa quando conheci seu filho, roqueiro, com quem fiz uma matéria especial para o caderno 2 do Jornal do Tocantins, onde eu escrevia à época. Depois, em 1996, acompanhei sua ascensão ao cargo de desembargadora. Assisti o discurso emocionado e agradecido ao então governador Siqueira Campos e seu filho Eduardo, que deixava a prefeitura de Palmas naquele ano para ser sucedido por Odir Rocha.

Voltando no tempo dá o que pensar a quantidade de escolhas que todos estes personagens fizeram ao longo de suas carreiras profissionais e vidas públicas! Em algum momento, tudo indica, Willamara fez uma escolha errada. Não sabemos ainda quantas, nem quais, mas achei de uma grandeza notável a nota enviada ontem à imprensa. Simplesmente por que ela não alega inocência, como é costume. Nem tenta se justificar na imprensa e para o público antes de fazê-lo na instância da investigação que já responde.

No twiiter vi várias reações à postagem da nota. Irônicos, alguns pedem sua “parte neste latifúndio”. Outros bradaram: “não queremos desculpas, mas reparação”. É compreensível as reações indignadas de todos (entre as quais as nossas), mas vejo na atitude da desembargadora um passo importante, interessante sob o ponto de vista moral.

É tão bom quando alguém admite o erro ao invés de negá-lo. Parece que alivia a alma de quem sofre a conseqüência do mal causado. É assim quando por acidente, um amigo mata o outro no volante num ato de imprudência e as duas famílias sofrem. É assim quando um presidente tem um comportamento pessoal que ofende uma nação, como Bill Clinton no caso Lewinski, e admite que errou. É assim quando um administrador num país asiático,como a China ou o Japão - culturas milenares – comente um ato de corrupção e se demite, se entrega e às vezes até põe fim à vida.

Nossa sociedade ainda é aquela onde o normal é a negativa, é o disfarce, é a tentativa de transferir a responsabilidade para o outro. Por isso, mesmo que seja pouco e não resolva na origem o problema, um pedido de desculpas é sempre um começo. Quem dera pudéssemos ouvir outros ainda este ano, vindo dos que a gente sabe que erraram demais.

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