Respeito às diferenças

Como o preconceito e falta de respeito às diferenças podem agir sobre os relacionamentos? Leia a análise do jornalista Antônio Oliveira no artigo "Respeito às diferenças"! Confira!...

“É uma mulher inteligente, discreta e é a mãe de meu filho de dois anos. Ela é a minha grande companheira". Esta declaração é do novo vice-presidente da República, Michel Temer, 70 anos, diante da reação dos jornalistas à beleza e juventude de sua esposa, Marcela Temer, 27 anos, com quem está casado há oito anos.

A elegância do casal e, mais precisamente, a beleza de Marcela movimentou dezenas de veículos de comunicação impressa, televisiva, falada, sites de notícias e relacionamentos nestes primeiros dias deste novo ano e coloca água abaixo, mais uma vez, um dos grandes preconceitos de pessoas atrasadas, principalmente em cidades do interior do Brasil: a união de casais com diferença de idade – mulher mais nova, homem mais velho; homem mais novo, mulher mais nova.

Outro grande preconceito e falta de respeito é em relação ao homossexualismo. Este é outro assunto que já abordei em outro artigo. O amor não tem idade, raça, cor, sexo, pátria, status social e econômico e, como nada neste mundo ocorre por acaso – a não ser que, por desequilíbrio, bom senso, responsabilidade e interesses escusos precipitamos as coisas –, a união de dois seres humanos, pelos laços do matrimônio, é uma determinação de Deus, no entendimento de católicos e evangélicos, e/ou de Deus e do casal, quando este está no plano Espiritual, para os espiritualistas.

Namoro e casamento entre dois seres com diferenças de idade é uma realidade desde o início da humanidade e cada vez mais, nestes tempos modernos fica mais comum. É verdade que nem sempre esta união se dá por amor. Há as conveniências e interesses outros – isto mais nos tempos dos nossos avós e bisavós, menos em nosso tempo.

“No nosso caso não tem idade. É como se o Michel tivesse 30 anos. É engraçado falar, mas é verdade. Ele tem o passado dele, mas a nossa vida é normal como a de qualquer casal que se ama muito. E depois de quase sete anos casados, planejamos a vinda do Michelzinho, o que só nos uniu ainda mais”, disse Marcela à versão on line do jornal o Estado de São Paulo, num cala-boca aos ignorantes, atrasados e preconceituosos.

Marcela e Michel Temer, não sãos os únicos casais com diferença de idade na sociedade brasileira, sobretudo na política, no jornalismo, nas artes, no empresariado, etc. Abílio Diniz, um dos maiores empresários do Brasil, tem 73 anos e é casado com a economista Geyze Diniz, 34 anos, com quem tem duas filhas. Fausto Silva, o Faustão, tem 60 e sua mulher 30. Os dois têm dois filhos. Renato Aragão é casado com uma mulher que, 17 anos antes de se casar com ele, era uma menininha de seus dez anos, fã dele e de suas palhaçadas. Cid Moreira tem 82 anos e sua mulher, a também jornalista Fátima Sampaio, 46. Mesma realidade é a do casal Chico Anísio e sua esposa Malga de Paula. O ator José de Abreu também é casado com uma recém formada em psicologia, com “idade para ser sua filha”. Mas não é. É sua mulher. São incontáveis casos destes por este mundo afora e, sempre, o mais velho se constitui em verdadeiros companheiros, amigos e incentivadores da carreira acadêmica e profissional de suas jovens mulheres, como é o caso das esposas de Abílio Diniz, Marcela Temer, José de Abreu e tantos outros. O homem maduro é mais seguro e equilibrado, está mais para sua amada, para sua família que para as armadilhas do mundo. “A vida recomeça aos 50 anos”, costuma dizer Abílio Diniz.

Porém, infelizmente, quantas uniões com essas diferenças, com tudo para dar certo, se acabam antes de começar, causando sofrimento para os dois lados, por obra e graça do atraso social, da ignorância e até de interesses outros? Quantas uniões se acabam rapidamente, depois de um dos lados deixar o certo pelo falso horizonte apontado pelo preconceito? Certa vez, eu viajava de Barreiras, na Bahia, para Palmas, no Tocantins, onde morava. No caminho, na cidade de Santa Rosa, deparei com uma jovem senhora com uma criança no colo e outro na barriga, em gestação, pedindo carona, até Porto Nacional. Uma enorme mala do lado.

Conversa vai, conversa vem, ela revelou o seu drama. Aos 16 anos, um senhor de seus 50 anos se apaixonou por ela que, a princípio, não via futuro na relação, tinha, também medo do dedo, da boca dos hipócritas. Até, com a insistência de seu enamorado, rolou um namoro e ela passou a gostar dele. O casal, de acordo com ela, despertou a atenção e a inveja de muita gente, inclusive de amigos e amigas. Ele rompeu, atendendo a sugestão dos preconceituosos, aqueles que achavam que ela tinha idade para ser filha daquele senhor.

“Olha no que deu, moço. Eu, atendendo a opinião dos idiotas, casei com um moço da minha idade. E estou aqui, hoje, fugindo dele que, pouco tempo depois de casado, revelou-se num irresponsável, farrista, mulherento e cachaceiro e até impediu a continuidade de meus estudos. Não agüento mais, mesmo esperando outro filho dele. Estou voltando para casa de meus pais”, disse ela, quase chorando.

“Enquanto isto – continuou – uma das minhas amigas que mais condenavam o meu namoro com um homem ‘com idade para ser meu pai’, vive feliz com ele em Goiânia.

Antônio Oliveira - é jornalista editor geral da Revista Cerrado Rural

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