A economia do transporte no Tocantins: entre a regulação e a realidade

Quando o sistema funciona, ele aproxima mercados e reduz desigualdades; quando falha, o resultado é o isolamento e a perda de competitividade

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Falar sobre transporte é falar sobre desenvolvimento. É discutir, na essência, o direito de ir e vir, o acesso à saúde, à educação, ao trabalho e a novas oportunidades. Em suma, debater a mobilidade é debater a qualidade de vida e o crescimento econômico de uma região. A economia do transporte estuda justamente essa engrenagem, como deslocar pessoas e mercadorias de forma eficiente, conciliando custos, segurança, qualidade e sustentabilidade. Quando o sistema funciona, ele aproxima mercados e reduz desigualdades; quando falha, o resultado é o isolamento e a perda de competitividade.

 

 

No Tocantins, esse desafio ganha contornos ainda mais complexos. Com uma das menores densidades demográficas do país — cerca de 5,45 habitantes por quilômetro quadrado, segundo o Censo 2022 do IBGE —, o estado convive com uma distribuição populacional profundamente desigual. Enquanto a capital, Palmas, concentra aproximadamente 125 habitantes por quilômetro quadrado, vastas áreas do território permanecem pouco povoadas.

 

 

Essa dispersão geográfica impõe barreiras severas à organização do transporte intermunicipal. A baixa concentração de passageiros em diversas rotas compromete a escala necessária para tornar economicamente viável a ampliação de viagens. Como consequência natural para equilibrar custos e receitas, as empresas concessionárias concentram seus serviços em poucos horários e itinerários.

 

 

Sob a ótica empresarial, a lógica é compreensível. Entretanto, para o cidadão que depende do transporte, a realidade é cruel. Horários limitados e a falta de flexibilidade engessam a vida de quem precisa viajar para uma consulta médica, estudar, trabalhar ou fechar negócios. Esse déficit de mobilidade não gera apenas desconforto individual, ele sufoca a economia local, restringe a circulação de renda, dificulta a integração dos municípios e encarece os custos de transação para os empreendedores da região. Em termos logísticos, cria-se um cenário de menor competitividade e menor desenvolvimento regional.

 

 

É justamente nesse vácuo que florescem as plataformas de compartilhamento de viagens e os transportes por aplicativos. Para além das calorosas discussões jurídicas, há um fato econômico incontestável, esses serviços cresceram porque atendem a uma demanda real. Onde o mercado regulado não conseguiu oferecer frequência e flexibilidade, a inovação preencheu a lacuna. Por isso, quando o poder público intensifica a fiscalização e penaliza esses motoristas, cumpre uma estrita obrigação legal, mas passa longe de resolver o problema de fundo. A provocação central permanece intocada: como atender a população que precisa se deslocar diariamente e não encontra opções compatíveis no sistema convencional?

 

 

Não se pode ignorar, ainda, o impacto socioeconômico dessa atividade. Para muitos trabalhadores, o transporte por aplicativo tornou-se uma fonte indispensável de sustento e uma alternativa de inserção produtiva em um mercado de trabalho restritivo. Sufocar essa prática sem discutir saídas regulatórias significa dar as costas para a geração de renda e para a subsistência de muitas famílias.

 

 

O maior desafio do Tocantins está em reconhecer que a nossa realidade territorial exige soluções sob medida. Um estado de grandes distâncias e baixa densidade populacional não pode ser gerido por modelos concebidos para os grandes centros urbanos. A logística tocantinense clama por flexibilidade e capacidade de adaptação.

 

 

Portanto, o debate sobre o transporte intermunicipal precisa superar a velha polarização entre o legal e o ilegal. A questão fundamental não é escolher entre regulação ou inovação, mas sim encontrar formas de compatibilizar ambas. O objetivo deve ser a construção de um ambiente regulatório moderno, que garanta segurança aos usuários, previsibilidade ao Estado, sustentabilidade às empresas do setor e oportunidades de trabalho para os motoristas.

 

 

O atual momento eleitoral abre uma janela valiosa para que o tema seja tratado com a seriedade que o caso requer. Longe de ser uma pauta puramente corporativa, esta é uma discussão sobre inclusão social e futuro econômico. É hora de sentar à mesa e ouvir usuários, empresários, motoristas, especialistas e gestores públicos para desenhar soluções equilibradas.

 

 

O verdadeiro sucesso de uma política pública de transporte não é medido pela sua capacidade de punir ou fiscalizar, mas sim pela sua competência em conectar pessoas e ampliar horizontes. Afinal, quando a regulação se distancia da realidade, quem paga a conta é o cidadão. E quando a mobilidade funciona, é toda a sociedade que avança.

 

Francisco Viana Cruz é doutor em Economia e Professor do IFTO

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