A morte, esta sorrateira, que chega sempre dura para nos curvar

Não existem palavras capazes de consolar a dor dilacerante da perda, ainda mais quando a ordem natural da vida se inverte e os mais velhos são obrigados a enterrar seus mais novos: filhos, netos, sobrinhos...crianças. Pelo que tiveram de trágico, as ...

Desde o começo da noite de ontem uma espécie de comoção popular tomou conta das rodas políticas e apolíticas do Estado, em torno de um acidente que afetou quatro famílias: duas goianas e duas tocantinenses. Igualando as pessoas na dor, independente de seus postos e cargos, a tragédia que levou Bruno, Tiago, Andréia, Guilherme, Luiz Carlos e Gabriel fechou com um manto de tristeza uma semana que já estava sombria para milhares de tocantinenses.

Mortes que decretaram uma trégua política, amenizaram diferenças e estão fazendo repensar a vida.

As partidas trágicas são sempre as mais dolorosas, pelo quanto trazem de surpresa, na tragédia inesperada que não deixa tempo para um último abraço, nenhuma despedida, qualquer acerto de contas ou pedido de perdão.

Assim a tarde chuvosa que caia sobre Senador Canedo - trilha conhecida por todos nós, goianos ou não nas inúmeras viagens a Goiânia - foi a testemunha final dos últimos momentos de vida de seis pessoas, especiais, cada uma para os seus amados.

Solidários, tocantinenses de todos os partidos, de todas as preferências políticas, amigos ou adversários levantaram ontem uma trégua diante dos embates causados pelas decisões do governo esta semana. Até as seis horas da tarde desta sexta-feira, 14, só se falava em demissões de servidores. Hoje e pelos próximos dias só se falará do trágico, do inusitado, da perda absurda.

É assim, nas lições da morte, que os desígnios divinos - para quem acredita em Deus - se manifestam com todo seu furor, sua generosidade e mistério.

Inocentes, puros e ainda tão alheios a tudo que movimenta o coração dos homens na vida e na política, três crianças, praticamente, partiram rumo ao desconhecido. Três adultos pela mesma forma os acompanharam: dois profissionais da aviação e uma mãe, que por nada se separava de seus filhos.

Na tristeza e lamentação que cercou a todos unidos aos Siqueira, aos Coelho e aos demais por um laço sequer de solidariedade, alguma coisa se pode aproveitar para reflexão.

A necessidade de amar mais e brigar menos.

A possibilidade de fazer o maior bem imaginável nas nossas ações.

A compreensão da fragilidade da vida, sempre presente na morte.

Esta,  estranha sorrateira que - cercada de temor em todas as culturas, tratada de forma tão diferente pelas diversas religiões - sempre chega para nos curvar.

Ela que nos faz de novo todos iguais, como no primeiro dia em que chegamos ao mundo e tem o dom de desmanchar num sopro todas as frágeis e passageiras diferenças que nos separam.

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