Meu telefone tocou pouco depois das 21 horas de ontem com um colega jornalista informando uma pauta urgente: um assessor da senadora Kátia Abreu (DEM), coordenadora da campanha da coligação Tocantins Levado à Sério tinha sido detido no shopping distribuindo panfletos apócrifos “contra o governador Gaguim”.
Não era bem isso. Deslocada para a sede da PF, a repórter Andressa Figueiredo encontrou um senhor de 54 anos, sotaque carregado, de origem estrangeira, que mora no Tocantins desde 1993. Ele não assessora ninguém. Mora no interior do Estado, estava hospedado num hotel na capital, onde está por curto período de tempo para resolver problemas da sua propriedade rural.
Iakov Kalugin distribuía cópias reprográficas que ele mesmo pagou para fazer, de um artigo do jornalista Luiz Armando Costa, devidamente assinado e publicado em seu blog (www.luizarmandocosta.com.br) do qual o produtor gostou, e julgou importante que outras pessoas lessem.
Parece estranho, não? Sim, parece. Mas só parece por que estamos no Tocantins, em Palmas, onde o exercício da cidadania, individual ou em grupos é raro. Não seria estranho em Goiânia, em Brasília, no Rio Grande do Sul, ou em outro centro qualquer. Reproduzir artigos é prática comum na militância estudantil, em segmentos sindicais, e até individualmente por pessoas que têm prática política mais ativa. Fosse uma cópia fajuta, adulterada, com títulos trocados e produzida para efeito de propaganda não haveria o que discutir.
Detido e levado para a PF
No caso de Iakov, ele foi denunciado por um candidato a deputado da coligação Força do Povo que estranhou sua atitude de distribuir cópias dentro do shopping, de um artigo crítico à ações de governo. O que soa estranho é que a Polícia Militar o tenha detido e levado à Polícia Federal sob a justificativa de que distribuía panfletos apócrifos. Sem averiguar. Imagine se a atitude for a mesma para toda denúncia do gênero.
Não ficamos com uma cópia do artigo: os que sobraram estão de posse da Polícia Federal. Mas duas coisas estão claras: não era panfletos, nem eram apócrifos. E uma terceira: Iakov não é assessor de Kátia Abreu. O jornalista Luiz Armando sim, ocupa assessoria de imprensa da senadora. O que não impede que produza textos críticos e analíticos no exercício da profissão e da livre opinião que faz tão bem há tantos anos.
Parafraseando o poeta, posso não concordar com o que você escreve, mas morrerei defendendo o seu direito de fazê-lo. As declarações que Iakov deu aos jornalistas estão aqui, na matéria de Andressa. No fim da noite, liberado após explicações, ele tentava uma carona para voltar para o hotel. A viatura da PM que o deteve por crime até agora desconhecido, o deixou a pé na PF. Mas o jornalista e ex-presidente do Sindjor, Élcio Mendes, fez o favor de levá-lo no fim da conturbada noite em que o exercício livre da cidadania virou crime, por algumas horas, no Tocantins.
Comentários (0)