Na urgência, deputados aumentam o próprio salário e escancaram a cota do privilégio que divide o País

É chato falar de coisa repetida. Nos últimos anos, tornou-se lugar comum reclamar cada vez que há um aumento exagerado de salários para uma classe privilegiada sob vários aspectos se comparada ao que ganha a maioria dos trabalhadores brasileiros. Diz...

Não cabe fazer comparação de importância.Nem estamos aqui defendendo que todos deveriam ganhar igual. Mas está oficializado o absimo da diferença com a elevação ao teto de pouco mais de R$ 26 mil, uma centena de brasileiros ilustres que a Câmara dos Deputados considera que deva ganhar mais. Federais entre eles, é lógico.

 Dizer por exemplo, que o dia a dia do motorista da Miracema, que faz a rota da região Sul até o centro de Palmas todo o dia é mais desgastante do que a rotina de qualquer deputado federal tocantinense pode soar provocação barata. Vão ponderar as responsabilidades de um e de outro, a necessária formação, o investimento em conhecimento. Comparar professor primário então, policial militar, ou qualquer categoria das mais importantes para a vida diária de uma multidão de brasileiros sub empregados provocaria inúmeras reações e argumentos incansáveis de lado a lado.

O que fica claro é para mim e certamente para muitos brasileiros é que agora, mais do que nunca, foi estabelecido um parâmetro de comparação entre os mal pagos (milhares de assalariados ganhando o mínimo), os bem pagos (todos acima de 6 salários, que é o que o Dieese considera o mínimo para uma vida digna) e os que estão no teto.

Sim, por que a partir do aumento de salários dos deputados federais temos mais gente chegando ao teto salarial permitido no Brasil, algo em torno de R$ 26 mil. É evidente que há quem receba mais do que isso. Salário não inclui outros benefícios acumulados ao longo dos anos em carreira pública em alguns poderes.

Efeito cascata compromete estados, Tocantins entre eles

O que impressiona é o efeito cascata que o aumento fatalmente vai provocar. De cara 20 estados da federação terão aumento quase automático dos salários de seus deputados estaduais e governadores. No Tocantins há previsão legal para acompanhar a "conquista": estaduais aqui ganham 75% do que ganham os federais.Claro, que sem contar as tais verbas de gabinete. Nas Câmaras municipais de capitais, havendo orçamento, eleva-se o salário dos nobres parlamentares para 75% do que ganham os estaduais. Se não houver orçamento, corta-se em outra parte, No sálario dos edis,não.E a conta só aumenta em todo País.

Até Maluf achou "inoportuno"

Deu no Estadão que um dos escassos votos contra o aumento foi do deputado Chico Alencar do Psol que disse: "Essa decisão aprofunda o abismo entre a sociedade e o parlamento. É uma demasia". Além dele, que é de esquerda, a frase de Paulo Maluf resumindo sua avaliação na coluna do jornalista Cláudio Humberto neste domingo é emblemática, por representar um pensamento que vem do outro extremo: “Eu acho que foi inoportuno”.

O aumento, de 62% para deputados e mais de 100% para os ministros e a presidenta realmente coloca alguns brasileiros num patamar privilegiado: o teto. Parafraseando um milionário norte americano que declarou à revista Caras: “Acima de US$ 1 milhão de dólares, somos todos iguais”, cabe dizer que no Brasil agora há uma distância tão grande separando o salário mínimo, do salário máximo que podemos dizer sem medo de errar: aqui, acima de R$ 26 mil reais, todos os privilegiados são iguais.

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