Um problema de discurso no governo, ou: quando a ação até é boa, mas a explicação atrapalha

O começo do governo Siqueira Campos está desencontrado quando o assunto é comunicar. Não vai aqui crítica a ninguém especificamente, mas uma coisa não dá para negar: práticas difíceis, não tiveram respostas rápidas. E outras bem intencionadas podem v...

Entra governo, sai governo e algumas coisas não mudam. Exemplo: todo governante que entra faz referência às dívidas deixadas pelo antecessor. Exceção feita a Marcelo Miranda, quando sucedeu Siqueira Campos em 2002. De público não tratou de dívidas. Era herdeiro do espólio administrativo e político de Siqueira. Por isto, disseram seus aliados pelas ruas da cidade, o ex-governador peemedebista teria pagado em silêncio as supostas dívidas que herdou e tocado o barco. Relatar as dívidas, é obrigação, transparência. Faturar politicamente a dívida é outro caso. E é aí que digo que o hábito é comum a quase todos os governos.

Agora, outro exemplo, que é o que me faz entrar no assunto. O governador Siqueira Campos(PSDB) entregou hoje simbolicamente três notebooks em regime de comodato a professores concursados lá em Aparecida do Rio Negro. Está errado? Não. Se os computadores foram licitados e adquiridos pelo Estado, se tornaram patrimônio público, não interessa quem seja o governador. A ação está certa, mas o discurso já “são” outros quinhentos, parafraseando o ditado popular.

Explico: estou vendo um problema grande na comunicação do governo. Uma diferença grande entre a prática e a explicação da prática. Vou ilustrar mais um pouco e volto aos notebooks logo mais.

Terceiro exemplo: me acompanhem. O governo entrou demitindo. Ou exonerando, como corrige sempre que pode o secretário da administração. No popular dá na mesma: significa mandar gente embora. Só uma semana depois da vaca morta vieram as explicações: o dinheiro do mês não daria para pagar a folha, eram R$ 20 milhões excedentes, era preciso cortar para assumir as funções do Estado, etcétera e tal.

Explicou, mas não justificou. Isso por que o estrago já estava feito e não há quem convença os que estavam trabalhando que sua demissão - Ops! Exoneração - foi justa. Daí que digo, sob pena de novas críticas, que esta foi uma ação mal planejada sob dois pontos de vista: administrativo e político. Mas vá lá, está feito.

Agora o principal.

Gaguim entregou de novo, os ônibus que Marcelo comprou

Quando assumiu o governo interino, Carlos Gaguim já fez o que pode para mostrar publicamente que não tinha nada a ver com Marcelo Miranda. Seu governo era de “coalisão”, e integraram a estrutura de poder históricos oposicionistas ao PMDB. Assim, elegeu-se para o mandato tampão e em seguida fez o quê? Pegou os ônibus escolares que Dorinha programou, comprou e Marcelo deixou pago a metade e mandou arrancar os adesivos com a logomarca anterior. Depois mandou lavar, colocou na Praça dos Girassóis e... entregou.

Quando questionado sobre o passado dizia que o mérito era dele por que o ex-governador cassado não tinha pago a fatura. A conta sobrara para ele, Gaguim pagar. E dá-lhe cerimônia de entrega e fotos na Praça dos Girassóis.

Neste aspecto Siqueira agiu diferente. Foi à Aparecida do Rio Negro hoje e entregou calado, sem alusões a quem quer que seja, três computadores dos milhares que Gaguim licitou, comprou, mas não pagou. Até aí tudo bem. O problema é a explicação do secretário Danilo de Melo - que tenho na conta de competente na missão de se comunicar – misturou tudo. Veja por quê: primeiro admitiu que os computadores foram adquiridos pelo antecessor, depois disse que a licitação é questionável e finalmente informou que os computadores não foram pagos, assim é Siqueira quem tem os méritos pela entrega, não é? Afinal herdou os computadores e a dívida. Vai ficar com os 3.200, ver como fica a licitação e se entender com o fornecedor.

A entrega, a explicação e o furo no discurso

Ora, mas como assim? Ou a licitação vale, ou não vale. Caso seja válida e esteja certinha o governo pode ficar com os computadores e entregar. Se está errada tem que devolver, e não distribuir 3.200 para depois ver como é que fica. Falha no discurso. Seria bem melhor não misturar alhos com bugalhos tentando dizer que quem comprou não tem mérito por que deixou a conta sem pagar. A conta é do Estado, não é mesmo?

Bem, mas sigamos.

O pior do discurso é mesmo a história das demissões, misturada com as dívidas e as contas que não fecham. O secretário foi questionado sobre isso pela repórter Patrícia Saturno, primeira a tocar no assunto quando perguntou de onde vinha o dinheiro para pagar os kits (uniforme, material escolar, livros) distribuídos hoje, se a Seduc ficou com uma dívida de R$ 35 milhões e está obrigada a demitir para ajustar.

Danilo deu um sorriso sem graça e emendou a explicação: “o orçamento de 2011 já previa gastos com livros e uniformes”. É verdade, mas tem que licitar. Se não os livros, pelo menos o uniforme. Ou não? Sim, mas... e outra explicação: “isso aqui é só um teste, se os estudantes se adaptarem ao modelo as escolas receberão o dinheiro para comprarem por si, em cada cidade, das confecções do interior”. Certinho. Mas não é um modelo em teste. São seis. Ainda faltam as explicações complementares, mas estou certa de que virão. Para toda pergunta, sempre tem uma resposta. E no caso de Danilo, e do novo governo, presumo, tudo está sendo feito de forma legal e correta.

Aos 24 dias, o governo do Estado conseguiu o feito de abrir as aulas da rede estadual dando uma nova cara à gestão que pretende implementar. Positiva, com metas a cumprir, e que dentro em breve estará mudando os índices do Ideb, por exemplo. Milagre operado pela gestão de Danilo no município de Palmas que - pasmem - conseguiu colocação melhor que algumas escolas de Curitiba na avaliação nacional. Lógico, estudando aplicadamente os conteúdos da prova. Mas isso é outra história.

Ajustar para responder sem medo de errar

Com perdão da extensão do artigo, e da chatice em questionar coisas que poderiam passar como meros detalhes, penso que o governo precisa sim ajustar o discurso. O novo governador foi recebido com expectativa e esperança pela população, e com boa vontade pela imprensa. Mas tem que acertar o discurso do seu governo urgentemente.

Para que ações boas, positivas e defensáveis não se percam em explicações atrasadas ou mal preparadas. Nesta segunda, mais uma vez, o governador saiu sem falar com a imprensa. Depois do porta-voz na fase pós eleição, e do papel assumido por Eduardo Siqueira - a voz política do governo – agora são os secretários de cada pasta que assumem os ônus e bônus das explicações.

O governador segue poupado do encontro cara a cara com os jornalistas para evitar qualquer conflito ou pergunta que possa gerar estresse e constrangimento. Sinceramente, não entendo por quê. Siqueira não começou ontem, sabe o que quer fazer do seu governo e como chegar lá. O resto é só o ajuste aos novos tempos em que a imprensa está mais chata mesmo. Por que são mais veículos - e não só uma grande rede – difundindo informações. É uma imprensa que pergunta mais, questiona mais e faz melhor hoje, do que há oito anos, o papel de porta-voz de uma sociedade já nem tão silenciosa. Por isto, insisto, não há pergunta que não possa ser feita, nem questionamento sem resposta.

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