“Nunca vou esquecer a imagem dele chegando, montado a cavalo, com sua caixinha de giz nas mãos.” A frase, curiosa, é de Felipe Leonel Barbosa, de 65 anos de idade, agropecuarista em Araguaçu, falando do ex-professor Zé Wilson, que o alfabetizou em 1951, na fazenda Montes Belos, município de São Francisco de Sales, interior de Minas Gerais.
O professor Zé Wilson, recém casado, era um rapaz com vinte e poucos anos, que morava na fazenda do sogro e trabalhava muito. Mas ao invés de se dedicar apenas a lida diária da fazenda e descansar nos momentos de folga, se preocupou com o futuro de quase trinta crianças, filhos de outros trabalhadores da região rural de São Francisco de Sales, que entre os seis e dez anos de idade, não sabiam ler nem escrever. A cada dois dias, ele usava a montaria para ir até a casa do senhor Alcides Leonel, pai de Felipe, onde os pequenos se reuniam para assistir as aulas. Foi assim que essas crianças, no início da década de 50, foram alfabetizadas e receberam ensinamentos básicos de matemática.
“O que seria de nós, hoje, se não fosse o professor José Wilson nos ensinar?” refletiu Felipe, após 59 anos. Nesse clima de boas lembranças, moldadas por muita emoção é que aconteceu o reencontro entre aluno e professor esta semana, em Araguaçu, Tocantins. Felipe mora na cidade há três anos com a esposa e três filhos. Quando se mudou para o Tocantins conhecia a história do jovem Estado e soube, há alguns dias, que haveria uma reunião política na sua cidade onde líderes se encontrariam para falar sobre suas propostas e foi até lá para ouvi-las. Mas a intenção e curiosidade de Felipe eram mais que isso, ele queria conferir se um desses líderes era quem conheceu na infância.
Ao se aproximar de Siqueira Campos, Felipe perguntou: o senhor se lembra de mim? Sou Felipe Leonel. Disse acrescentando à lembrança os nomes da fazenda e da cidade onde viveu a infância.
Foram as dicas necessárias para que Siqueira o olhasse firme nos olhos dizendo: “não e possível! Você não é um daqueles meus alunos que ensinei a ler e escrever, é? Perguntou o ex-governador já com a voz embargada. Felipe balançou a cabeça em gesto afirmativo e os dois se abraçaram com um carinho inexplicável.
“O senhor quem me ensinou a ler e escrever e eu nunca me esqueci disso”, disse Felipe. Siqueira Campos foi tomado por uma emoção que o deixou estagnado por alguns segundos e ao recuperar as palavras lembrou e falou os nomes dos pais de Felipe que o abraçou seguidas vezes.
Esse reencontro, após 59 anos tomou de emoção também as pessoas que estavam ao redor dos dois. O ex-governador Siqueira Campos, ou melhor, o professor José Wilson, como carinhosamente o chamou o ex-aluno Felipe contava a todos como eram as aulas, enfrentando as dificuldades da distância, da falta de estradas e de apoio para os livros dos alunos. O momento foi de muitos abraços e sorrisos. Siqueira Campos lembrou da turma de alunos que alfabetizou e Felipe demonstrou sua admiração e carinho.
Uma história e um reencontro que chamaram a atenção de todos e especialmente de quem acompanha essa história de vida de Siqueira Campos. Personagem da história do Tocantins e da vida de milhares de pessoas, que pode ate incomodar a alguns, mas é inegavelmente o protagonista de uma história a ser contada por muitos anos.
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